Vitor Pamplona
Crônicas de um cotidiano geek

Velhice Prematura

Postado em Jun 20, 2008 por Vitor Pamplona - Editar - História

 Quantas vezes você já ouviu a frase " Eu não tenho mais paciência para isso ", ou variantes dela?
" Eu não sou pago para me estressar ", diz o programador, " Eu não pertenço mais a este mundo ", diz o analista, " Eu gostaria de um salário que seja o suficiente para viver bem e só ", diz o funcionário público. Estas frases classificam um estado de espírito, o acomodado, o principal sintoma da velhice. Normalmente, ele pode ser visto nos idosos e entendido como um estágio de " pronto para morrer ", ou " objetivo de vida concluído ". " Já fiz a minha vida, meus filhos estão bem encaminhados, agora é só relaxar e curtir ".

O que me impressiona é ouvir este tipo de frase partindo de bocas cada vez mais jovens, que deveriam estar no auge da sua energia, destruindo conceitos e paradigmas, ao invés de sentados em suas cadeiras ou jogando seus vídeo games. Estes jovens se dividem em dois perfis: o primeiro vem da grande parte que não quer nada com a vida, vive zanzando por aí as custas de alguém e tentando ganhar muito dinheiro sem fazer esforço, desrespeitando as leis e as pessoas. O outro grupo é mais responsável, porém já entenderam os conselhos dos mais velhos e seguem a risca todos os ensinamentos disponíveis na literatura, querendo chegar mais rápido ao período da " vida boa " de um ser humano. Muitas vezes se misturam, tornando-os uma mescla em prol de uma vida sem riscos e pacata.

Em 2001, quando entrei na faculdade, o meu objetivo de vida era ganhar R$ 3000,00 por mês, ter uma casa em Gaspar, um carro e uma esposa " legal ", não necessariamente nesta ordem. Não queria ganhar mais do que isso porque eu sabia que iria me estressar, trabalhar muitas horas e, quem sabe, conseguir uma úlcera. Nem cogitava sair do estado e muito menos do país. Podemos dizer que era o sonho de um brasileiro, em analogia ao sonho americano. Naquela época eu estava morto, não passava de um velho acomodado, semelhante a muitas múmias que vejo hoje em dia. Felizmente consegui mudar.

Que isto é influência da TV, dos filmes, deste ritmo intenso do mundo globalizado, desta facilidade cada vez maior para fazer qualquer coisa e do conforto doméstico, eu não tenho dúvidas. O mundo hoje é muito fácil, fato que torna as pessoas mais acomodadas. E pior, a maioria delas trabalha para que este mundo torne-se ainda mais fácil para as outras, o que nem sempre é a melhor saída. O sistema de cotas nas universidades, a super proteção aos trabalhadores em CLT, o bolsa família, a poupança, até mesmo a falta de um predador natural para o homem, são exemplos claros. James Hunter no livro O Monge e o Executivo (Um Monge Executivo), diz: " O melhor líder é aquele que dá aos outros o que eles precisam, não o que eles querem ". Bernardinho no livro Transformando Suor em Ouro diz que é necessário criar " zonas de desconforto ", as quais fariam seus liderados trabalharem juntos e com força de vontade máxima. Ambos buscam a evolução, o máximo do ser humano. Podemos fazer uma analogia com o mundo hoje. A facilidade é o que queremos, não o que precisamos. A facilidade cria conforto e não desconforto. Qualquer animal precisa sofrer. O sofrimento o faz melhor e com o homem não é diferente. Quando não há dificuldades, nós as criamos, seja em forma de desenvolvimento científico, seja em forma de bandidagem.

Quando eu li o Ócio Criativo (Por um Ócio mais Criativo), do Domênico De Masi, percebi que poderia me adaptar a um mundo novo. Um mundo meio utópico, que realizaria os meus sonhos. Menos tempo de trabalho, mais tempo para mim, para minha família e meus amigos. Excelente. Um modelo sustentável para a vida boa estaria sendo criado bem na frente dos meus olhos. Porém, Domênico é bem claro: o tempo livre não é para os acomodados, é para os super ativos se desenvolverem mais rápido. Ou seja, ninguém teria que fazer você " sofrer " para você evoluir, você mesmo teria que fazer isso. Uma espécie de auto-flagelação em prol de uma evolução. O que necessitaria de uma grande disciplina. Hoje penso que o modelo de Domênico serviria apenas para os ex-viciados em trabalho (Workaholic), pois já possuem o conhecimento, o mérito e a disciplina de uma vida de esforços (assim como o seu autor). Adotar o modelo precocemente é dar margem a acomodação, ter disciplina, apenas, não basta.

Grande parte das decisões da minha vida e, certamente da sua, são tomadas observando duas vertentes: a vida boa ou o esforço e a recompensa num futuro não muito próximo. Em outras palavras, você pode escolher entre ser o espectador ou ser o herói da história. Talvez seja por isso que o Tropa de Elite, e as histórias de grandes batalhadores da vida real fazem tanto sucesso. Todo mundo queria ser como eles, mas não conseguem, por pura falta de esforço. A velhice prematura é uma doença que atinge tudo e todos, mas quem decide adotá-la é sempre você. Observe quando ela atinge seus colegas, observe quando ela atinge a sua vida, e observe que grande parte das frases e provérbios concentram-se em não se acomodar.

Agora volte as frases:
- " Eu não tenho mais paciência para isso "
- " Eu não sou pago para me estressar "
- " Eu não pertenço mais a este mundo "
- " Eu gostaria de um salário que seja o suficiente para viver bem e só "

Que futuro tem essas pessoas?

Quantas vezes você parou de estudar quando estava cansadinho?
Quantas vezes você desistiu de algum objetivo?
Quantas vezes você disse que ia fazer e não fez?

As seguintes páginas estão falando sobre "Velhice Prematura":

Comentários


Discordo completamente, Vítor. Ninguém precisa sofrer para evoluir. E quando você estuda, pratica, tenta " destruir conceitos e paradigmas " é óbvio que está tentando criar algo que seja de alguma forma mais fácil, nunca mais dificíl. Se temos que sofrer para fazermos algo, é porque não QUEREMOS fazer algo. A maioria das pessoas que " destroem conceitos e paradigmas " são pessoas que amam o que fazem. Talvez você esteja confundindo sorfrimento com " vencer obstáculos ". um exemplo: você está fazendo o seu mestrado não é? então você me diria que está " vencendo obstáculos " para poder concluir seu mestrado (falta de grana, tempo, longe da família, etc), mas você não está sofrendo, senão você nem estava aí não é? E para que você está fazendo mestrado, para tornar sua vida mais dificíl ou mais fácil?

Grande abraço!

- - Evandro
Postado em Jan 26, 2008 por 201.68.78.150

Claro, todos podem evoluir sem sofrer. Muito mais lentamente, mas evoluirão.

O sofrer tem vários sentidos. Não estou falando do sofrer no sentido de ser obrigado a fazer o que não quer, é no sentido de dar o máximo de si, de quebrar limites. Veja, um dos erros mais comuns dos pais " modernos " é a super proteção dos filhos. Deveriam deixar o filho quebrar a cara sozinho ao invés de alertá-lo ou não deixá-lo fazer certas coisas. Os pais cometem o erro de fazer o que o filho quer e não o que ele precisa.

Outra coisa. Sempre tem alguma parte do seu trabalho que você não gosta. Você disse que as pessoas que quebram paradigmas amam o que fazem. Eu digo que elas amam uma parte do que fazem. O resto eles precisam " suportar ".

Eu estou fazendo mestrado para torná-la mais difícil. Se fosse para torná-la mais facil eu seria eternamente um programador Java.



- - Vitor Pamplona
Postado em Jan 26, 2008 por 143.54.13.84

Entendi seu ponto de vista, mas veja dessa maneira: ser eternamente um programador java, tornaria sua vida mais difícil e não mais fácil! Falo do OBJETIVO FINAL. Note que o que a maioria não entende é justamente isso: acham que se forem " eternamente o que são agora " e nunca quiserem se esforçar pelo menos um pouco, na sua carreira, na sua relação com a esposa (o), com os filhos e etc, vai ser tudo mais fácil, porque afinal não precisei me esforçar, suar, ou sofrer, e não percebem que o empenho e esforço dipensados para mudar isso vão MELHORAR esses fatores, tornando as coisas mais FÁCEIS. Veja: o OBJETIVO, o FINAL é ficar MELHOR, mais FÁCIL, mas o CAMINHO PARA O OBJETIVO é que é mais difícil! Quando você diz " sofrer " ou " suar " entendo que você se refere á esse caminho, não?
Ficou uma conversa meio filosófica (rsrsr) mas creio que seja isso.
Grande abraço!


- - Evandro
Postado em Jan 26, 2008 por 201.68.78.150

Vitor,

Você anda lendo o site BizRevolution? Está parecendo o autor deste: -)

Dá uma olhada neste post: http://bizrevolution.typepad.com/bizrevolution/2007/06/o-livro-mais-in.html

[],
AC

- - AC de Souza
Postado em Jan 26, 2008 por 200.157.150.2

Gostei muito do Post Vitor. Está de parabéns.
Também penso assim, mas tenho uma grande dificuldade em me expressar como você se expressou.

- - Richard
Postado em Jan 26, 2008 por 189.52.107.213

A idade está na cabeça. Tem verdade maior do que essa?

Eu tenho amigos de 25 anos loucos por estabilidade (e penso, se não arriscaram agora, então nunca mais), mas também tenho amigos de 40 se aventurando. Quem é mais jovem? Sobre suas perguntas no final do post:

" Quantas vezes você parou de estudar quando estava cansadinho? "
Um monte. Eu sempre para de estudar quando estou cansado. Simples assim. Para mim, descansar é parte do que torna o aprendizado possível.

" Quantas vezes você desistiu de algum objetivo? "
Um monte de vezes também, porque eu não quero martelar sobre erros. Você nunca teve objetivos errados? Eu já, e aprendi muito com eles.

" Quantas vezes você disse que ia fazer e não fez? "
Toda vez que vc diz sim para alguma coisa, diz não para outra. Eu não tenho tempo infinito. Não tenho a vida toda para fazer tudo o que quero. Então eu já desisti de fazer muitas coisas sim, mas não desisto do que é importante para mim.

Vitor, achei o post ótimo, ótimo mesmo. Se me permite mais recomendações, veja Little Miss Sunshine. Vale a diversão, além de ser mais rápido de degustar do que o Ócio Criativo.

valeuz...

- - Marcos Silva Pereira
Postado em Jan 26, 2008 por 189.70.228.25

Esse post teu também é coisa de velho, é um sermão: - D

Gostei da resposta do Marcos Silva Pereira, hehehehe.: -)

O meu " eu não tenho paciência pra isso " não é de velho, e sim de criança, haha, nesse aspecto ainda sou uma criança: - P

- - Marcus Aurelius
Postado em Jan 26, 2008 por 189.6.229.238

Concordo com voce victor, mas é que quando eu estava na plenitude deste estilo de vida, minha pressão arterial estava em 15X9 e eu sofria de um mal chamado stress. Hoje tenho os mesmos objetivos de vida, só que os prazos que me dei são maiores, afim de que eu possa atingi-los, mas correndo mais devagar. Ahh, a pressão voltou ao normal, o sorriso, a felicidade, a paz e tudo de bom voltou.
Abraço

- - Perell
Postado em Jan 26, 2008 por 189.12.189.55

Otima leitura, adorei!

Queria que voce escrevese mais vezes sobre esse mesmo tempo, adorei suas ultimas 3 fases, me fizeram pensar um pouco mais.

Grande Abraco!

- - Kemper
Postado em Jan 26, 2008 por 76.19.44.14

Vitor e sua capacidade de externar o dia a dia de muitas pessoas.

Parabéns Alemão, belo post!!!

BizRevolution - " Quebra tudo "
Postado em Jan 26, 2008 por Giovane Kuhn

Discordo plenamente do Vitor (apesar dele ser gente boa:) e concordo plenamente com o Marcos Silveira Pereira (muito boa mesmo). Porém, o tema é interessante. Eu mesmo já " encuquei " muito a respeito de " feitos heróicos " e " legados ". Hoje eu já estou mais para o " velhinho acomodado ":)

Que não devemos nos acomodar, concordo plenamente. Agora, observando o texto, fico com a sensação de uma angústia " no ar " e a impressão de um " desejo infantil ". Dentre várias, uma frase que me chamou a atenção:

- - - " (...) Em outras palavras, você pode escolher entre ser o espectador ou ser o herói da história. (...) "

Herói? Que herói? Existem sim as figuras de destaque na história. Temos cientistas brilhantes, músicos, estadistas, revolucionários, etc. Porém, se os enumerássemos, teríamos apenas um amostra quantitativamente desprezível do conjunto " seres humanos ". Heróis? Eles são tão humanos quanto nós, têm conflitos como nós, e podem ter se tornado " heróis " por um simples acaso (e inclusive até por um erro de interpretação!).

Não somos e nunca seremos heróis. Somos meros seres humanos e já saímos da fábrica acompanhados de diversas limitações, ítens de série! Aceitemos. Somos assim, e não há nenhum demérito nisso. Ou por acaso você se sente mal por ser " apenas um ser humano " que não consegue correr a mais de 25Km / h com as próprias pernas?:) Algumas pessoas possuem algumas capacidades melhor desenvolvidas, outras não. O que nos cabe é ter maturidade para avaliar quais as nossas, e tirar o melhor proveito delas como elas são.

Trabalhemos duro, façamos o nosso melhor (e apenas isso), mas também descansemos. Somos de carne e osso e os recursos de nosso corpo são finitos. A revolução industrial plantou essa idéia absurda nas nossas cabeças, a " cultura do trabalho ". Essa idéia também ajudou aumentar o mercado dos ansiolíticos, antidepressivos e outros psicotrópicos. Nos respeitemos, respeitemos a nós e ao nosso corpo.

Passemos boa parte de nosso tempo com os nossos. Além de exercitar o cérebro, temos que exercitar nossas emoções e o nosso afeto. Trabalhar é importante, porém a convivência e o contato com as outras pessoas também o é (e eu me atreveria a dizer que até mais).

E o futuro? No futuro morreremos:) Pode parecer trágico, mas não é assim? Depois de algumas gerações talvez nem sejamos mais lembrados. A maioria dos humanos não o é, e não por isso deixam de ter sua parcela de contribuição na história, mesmo que anonimamente.

A idéia de um " feito heróico " é mistificada. A sua busca gera angústia, ansiedade e leva conseqüentemente a uma vida pobre em significados (afinal, o que passa a ter significado é o " grande feito ", sempre distante - - por que será??). Devemos descobrir o tamanho de nosso passo e respeitar nossos limites para que possamos contribuir com os demais e ter ao mesmo tempo uma vida prazeirosa. Devemos lembrar que as outras pessoas são diferentes de nós, e que o idéia de mudá-las é tão mítico quanto a figura do herói.

No mais, boa Vitor! Gerou discussão! Tu sabe né, quando a banca se manifesta demais, é porque o assunto tá quente:)
[] s!

- - - - Christian
Postado em Jan 26, 2008 por 200.180.172.27

concordo com todos os posts. Faltou a palavra de um grande filósofo aqui, e este não sou eu.... sou um tecnólogo, e um pequeno filósofo... mas não vou deixar de expressar a minha opinião...

Eu penso que um bom ser humano, vem para a sua única vida com um único objetivo... conhecimento... mas o conhecimento não significa apenas estudar um ou mais assuntos para se acomodar um dia... o conhecimento faz parte de nossas vidas a cada segundo, a cada iteração com outras pessoas, seja na rua, quando você acorda, quando você abre o portão de sua casa com o objetivo de chegar no seu destino, as tomadas de decisões de sua vida... mas caindo na real... em tudo existe o lado bom e o lado ruim, o que vale é a sua interpretação... eu por exemplo, nada me derruba, pois mantenho o habito de ser positivo sempre... e de ver o positivismo em tudo, sempre estou aprendendo, as vezes sem sentir que estou aprendendo, de forma abstrata, estou aprendendo com a vida a cada dia que passa, idéias geniais aparecem na cabeça de cada ser humano, alguns tentam, outros não, alguns se dão bem, outros não, o mais importante é sabermos que cada cabeça pensa de um modo diferente... e cada um toca a vida como ela bem deseja... mas creio eu que o mais importante é você sempre estar de bem com a vida, gostar do que faz, e ir em busca do conhecimento global, que é o conhecimento da vida humana... não importa o perfil que você adquiriu se você não gosta do que faz... um papeleiro pode ser muito mais feliz do que um empresário dono da empresa mais rica do mundo, e nem por isso este empresário precisa necessariamente ter mais conhecimento do que este papeleiro... o papeleiro tem conhecimento sobre a vida que ele vive, ele aprende na rua coisas que o tal empresário não aprendeu... e pode parecer que não seja desejável aprender o que este papeleiro aprendeu, lógico... não faz parte dos seus pensamentos...

Tentar manter o positivismo em todas as situações por mais ruins que elas sejam, é o auge do conhecimento humano.



- - André Rafael Mezzalira
Postado em Jan 26, 2008 por 189.32.29.201

Esses posts já estão ficando um saco. Vê se presta mais atenção Vitor. TODOS os seus posts são assim:

Antes eu fazia X, e portanto antes X que era bom. Agora eu faço Y e, Y que é maravilhoso. X é uma bosta.

Ah, e fazer mestrado não significa nada não. Ninguém precisa abidicar de nada pra fazer um mestrado. To no meu doutorado e graças a Deus aqui na pós-graduação pouquíssimas pessoas acham que são melhores do que outras só pq estão estudando mais um pouco.

Se enxerga!

- - nao vou falar
Postado em Jan 26, 2008 por 201.40.1.243

Sr. " - - nao vou falar ", é assim que você se engana!
O cara realmente é melhor que os outros.

Eu sou da teoria " Eu gostaria de um salário que seja o suficiente para viver bem e só ", e a vida me deu motivos pra isso. Eu até ia criticar, mas como foi o Vitor que disse, ele pode.
=)

- - Renato
Postado em Jan 28, 2008 por 189.6.254.252

assim = = aí

- - Renato
Postado em Jan 28, 2008 por 189.6.254.252

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