
Quantas vezes você já ouviu a frase " Eu não tenho mais paciência para isso ", ou variantes dela?
" Eu não sou pago para me estressar ", diz o programador, " Eu não pertenço mais a este mundo ", diz o analista, " Eu gostaria de um salário que seja o suficiente para viver bem e só ", diz o funcionário público. Estas frases classificam um estado de espírito, o acomodado, o principal sintoma da velhice. Normalmente, ele pode ser visto nos idosos e entendido como um estágio de " pronto para morrer ", ou " objetivo de vida concluído ". " Já fiz a minha vida, meus filhos estão bem encaminhados, agora é só relaxar e curtir ".
O que me impressiona é ouvir este tipo de frase partindo de bocas cada vez mais jovens, que deveriam estar no auge da sua energia, destruindo conceitos e paradigmas, ao invés de sentados em suas cadeiras ou jogando seus vídeo games. Estes jovens se dividem em dois perfis: o primeiro vem da grande parte que não quer nada com a vida, vive zanzando por aí as custas de alguém e tentando ganhar muito dinheiro sem fazer esforço, desrespeitando as leis e as pessoas. O outro grupo é mais responsável, porém já entenderam os conselhos dos mais velhos e seguem a risca todos os ensinamentos disponíveis na literatura, querendo chegar mais rápido ao período da " vida boa " de um ser humano. Muitas vezes se misturam, tornando-os uma mescla em prol de uma vida sem riscos e pacata.
Em 2001, quando entrei na faculdade, o meu objetivo de vida era ganhar R$ 3000,00 por mês, ter uma casa em Gaspar, um carro e uma esposa " legal ", não necessariamente nesta ordem. Não queria ganhar mais do que isso porque eu sabia que iria me estressar, trabalhar muitas horas e, quem sabe, conseguir uma úlcera. Nem cogitava sair do estado e muito menos do país. Podemos dizer que era o sonho de um brasileiro, em analogia ao sonho americano. Naquela época eu estava morto, não passava de um velho acomodado, semelhante a muitas múmias que vejo hoje em dia. Felizmente consegui mudar.
Que isto é influência da TV, dos filmes, deste ritmo intenso do mundo globalizado, desta facilidade cada vez maior para fazer qualquer coisa e do conforto doméstico, eu não tenho dúvidas. O mundo hoje é muito fácil, fato que torna as pessoas mais acomodadas. E pior, a maioria delas trabalha para que este mundo torne-se ainda mais fácil para as outras, o que nem sempre é a melhor saída. O sistema de cotas nas universidades, a super proteção aos trabalhadores em CLT, o bolsa família, a poupança, até mesmo a falta de um predador natural para o homem, são exemplos claros. James Hunter no livro O Monge e o Executivo (Um Monge Executivo), diz: " O melhor líder é aquele que dá aos outros o que eles precisam, não o que eles querem ". Bernardinho no livro Transformando Suor em Ouro diz que é necessário criar " zonas de desconforto ", as quais fariam seus liderados trabalharem juntos e com força de vontade máxima. Ambos buscam a evolução, o máximo do ser humano. Podemos fazer uma analogia com o mundo hoje. A facilidade é o que queremos, não o que precisamos. A facilidade cria conforto e não desconforto. Qualquer animal precisa sofrer. O sofrimento o faz melhor e com o homem não é diferente. Quando não há dificuldades, nós as criamos, seja em forma de desenvolvimento científico, seja em forma de bandidagem.
Quando eu li o Ócio Criativo (Por um Ócio mais Criativo), do Domênico De Masi, percebi que poderia me adaptar a um mundo novo. Um mundo meio utópico, que realizaria os meus sonhos. Menos tempo de trabalho, mais tempo para mim, para minha família e meus amigos. Excelente. Um modelo sustentável para a vida boa estaria sendo criado bem na frente dos meus olhos. Porém, Domênico é bem claro: o tempo livre não é para os acomodados, é para os super ativos se desenvolverem mais rápido. Ou seja, ninguém teria que fazer você " sofrer " para você evoluir, você mesmo teria que fazer isso. Uma espécie de auto-flagelação em prol de uma evolução. O que necessitaria de uma grande disciplina. Hoje penso que o modelo de Domênico serviria apenas para os ex-viciados em trabalho (Workaholic), pois já possuem o conhecimento, o mérito e a disciplina de uma vida de esforços (assim como o seu autor). Adotar o modelo precocemente é dar margem a acomodação, ter disciplina, apenas, não basta.
Grande parte das decisões da minha vida e, certamente da sua, são tomadas observando duas vertentes: a vida boa ou o esforço e a recompensa num futuro não muito próximo. Em outras palavras, você pode escolher entre ser o espectador ou ser o herói da história. Talvez seja por isso que o Tropa de Elite, e as histórias de grandes batalhadores da vida real fazem tanto sucesso. Todo mundo queria ser como eles, mas não conseguem, por pura falta de esforço. A velhice prematura é uma doença que atinge tudo e todos, mas quem decide adotá-la é sempre você. Observe quando ela atinge seus colegas, observe quando ela atinge a sua vida, e observe que grande parte das frases e provérbios concentram-se em não se acomodar.
Agora volte as frases:
- " Eu não tenho mais paciência para isso "
- " Eu não sou pago para me estressar "
- " Eu não pertenço mais a este mundo "
- " Eu gostaria de um salário que seja o suficiente para viver bem e só "
Que futuro tem essas pessoas?
Quantas vezes você parou de estudar quando estava cansadinho?
Quantas vezes você desistiu de algum objetivo?
Quantas vezes você disse que ia fazer e não fez?
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