
Meu orientador usava o Acrobat Reader 5 até esses dias. Forçamos a mudança desta e de várias outras tecnologias. Ele não conhecia controle de versões, o JabRef, o Google Calendar, o Google Reader, ainda tinha problemas com Spams, entre outros detalhes. Podia jurar que ele não era da informática. Os freqüentes problemas durante migração de versões fizeram ele desistir de atualizar quase tudo. Manteve por anos uma configuração intacta, funcionando e produtiva para a época. Certamente, economizou um bom tempo e, ao contrário do que eu acreditava, as novas ferramentas não o tornaram mais produtivo, ficou na mesma. O delta de produtividade adicionado é tão insignificante que eu me perguntei: Somos vítimas da nossa própria área?
Estávamos numa reunião, revisando um paper em dupla, usando o novíssimo (para ele) Acrobat Professional 8. A adaptação dele para a nova versão foi rápida, eu estranhei. Num determinado momento, fechamos o PDF por engano. Ao reabrí-lo (duplo-click), o Windows mandou o PDF para o Acrobat Writer 5. Meu orientador nem deu bola e continuou fazendo anotações no PDF como se nada tivesse mudado. Eu me mantive revisando e observando seus movimentos. Para meu espanto, o Acrobat 5 possui as mesmas features de revisão do 8 e tem uma performance superior. Agora eu entendo quando ele dizia: " Para que atualizar? "
Meu orientador não sabe o que é Twitter, mas está quase sempre um passo a frente. Alguém sempre o avisa sobre algo importante antes de eu receber o meu twitter ou ler sobre aquilo nos meus feeds. Ele não sabe o que é Agile Manifesto, Scrum e OpenUP, e tem uma vaga idéia sobre XP porque eu expliquei a ele. No entanto, é uma das pessoas mais ágeis (no sentido de seguir o Agile Manifesto) que eu conheço. Os projetos comandados por ele tem uma qualidade tão grande que impressiona. Seus trabalhos são reconhecidos mundialmente, possui contatos fortes em grandes multi-nacionais e centros de pesquisa, públicos e privados, de ponta. Como isso é possível? Dom? Sexto sentido? Ou apenas bom-senso? Será que ele encontrou algo acima dos conceitos, das técnicas e dos procedimentos de liderança de equipes? Um filtro fantástico de bobagens?
Ele ainda não sabe o que é Trac, Testes Unitários, Selenium, Blog, Adsense, Analytics e muitas outras palavras da moda. Mantém discussões técnicas de alto nível orientadas unicamente ao problema. Foco, foco! As tecnologias utilizadas não são importantes. Se precisar desenvolver algo, ele entende rapidinho ou pede para alguém explicar no momento do uso e pronto. Se algo impaca (performance, por exemplo), o desenvolvedor tem que ser rápido o suficiente para migrar de tecnologia. É isso que ele espera, pois é isso que ele faria e faria rápido.
Sabe aquele cara que você visualiza em grandes empresas, liderando equipes de alto risco e, em conseqüência, ganhando muito dinheiro? É assim que eu o vejo. Mas não, ele optou por fazer o que gosta (ciência), controlar seu tempo, seus riscos e ganhar pouco.
O método de trabalho dele toca a fronteira da loucura frequentemente. Cobrança é grande, a qualidade tem que ser alta e o tempo é curto. Concentre-se. Foco! Foco! Sabe aquele sujeito que manda você fazer coisas sem sentido, pesquisar bizarrices e que aposta em fatores de grande risco? Nós concluímos: não tentaremos mais entender estas apostas. Contrariando as teorias de probabilidade, ele acertou em 90% dos casos. Fez coisas sem sentido se transformarem em grandes trabalhos. Afinal, não é qualquer um que coloca um trabalho de graduação na segunda maior conferência de computação gráfica do mundo, que muitos doutores sonham em entrar. Mesmo que muitos reclamem, todos concordam: o cara é foda!
Eu não sei explicar como, ainda não entendi o porquê, e certamente ainda não sei como imitá-lo. Talvez não seja necessário entender, talvez nem ele mesmo entenda o que faz. Mas espero, algum dia, conseguir filtrar as invariâncias tecnológicas e comandar equipes tão bem quanto ele. Foco! Foco!
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