
O modelo de Dreyfus separa, orientado ao modo de pensar do aluno, as etapas de aprendizagem durante um processo de aquisição de alguma habilidade. O modelo se encaixou tão bem com a descrição que o pessoal da computação apresentou, que eu começei a duvidar da veracidade das informações. Corri atrás do artigo original, publicado nos anos 80 e entitulado " A Five-Stage Model of the Mental Activities Involved in Directed Skill Acquisition ". Para minha irritação, tem gente tirando coelho da cartola, inventando coisas e botando palavras nos textos dos gênios da psicologia. Abaixo vou tentar descrever o artigo original (sou péssimo para traduções) e a seguir fazer alguns comentários.
Stuart e Hubert Dreyfus primeiramente questionam a validade dos experimentos de psicologia e filosofia feitos em ambientes controlados, muitas vezes em situações ideais ou artificiais. Citando vários trabalhos e pesquisadores anteriores, os dois concluem que um ambiente controlado dificilmente ocorrerá na prática, no dia a dia, e para os estudos de psicologia o contexto do experimento, assim como a forma como ele é apresentado e a afinidade dos voluntários com as tarefas, é extremamente importante, sendo quase impossível separar a influência de cada variável do problema a ser estudado. O modelo de cinco estágios que eles criaram foi baseado em depoimentos daqueles que aprendiam alguma habilidade na vida real e não em um experimento, portanto a validação da hipótese proposta por eles não sofreu influência de qualquer variável controlada.
Ao contrário do que era aceito na época (não sei se ainda é aceito hoje), de que a proficiência em uma habilidade aumenta a medida em que o conhecimento sobre ela se movia de concreto para abstrato, a hipótese dos Dreyfus seguiu uma linha na qual uma habilidade, em sua forma inicial, é produzida seguindo regras formais abstratas, mas somente a experiência com casos concretos pode levar a altos níveis de performance e expertise. Um entendimento detalhado dos cinco estágios pessoais: Novato, Competente, Proficiente, Expert e Master; auxiliaria os programas de treinamento de elite que, independente do modelo de aprendizagem adotado, devem se adaptar ao estágio atual ou transição em que cada pessoa se encontra, afim de atacar a maneira de pensar do próximo estágio. A seguir, veremos os detalhes de cada um dos estágios propostos por eles.
O processo de instrução inicia com a decomposição de uma atividade em características livres de contexto, as quais o iniciante pode reconhecê-las sem necessidade de experiência. Ao notar estas características, o novato começa a formar regras para determinar que ação tomar para cada uma delas. Para ele, as regras são invioláveis e absolutas. O novato busca constantemente uma confirmação, seja por observação própria ou por um feedback, de que ele está seguindo as regras. E, para ele, quanto mais seguí-las, melhor ele será.
Exemplos:
Competência vem após uma considerável experiência em situações reais nas quais o estudante nota, ou o instrutor aponta, padrões recorrentes também chamados de aspectos. Estes componentes situacionais não são mais apenas características livres de contexto, são inter conectadas e dependem do ambiente em que a pessoa se encontra. O instrutor pode formular princípios, ou guidelines, mapeando estes aspetos baseados na experiência vivida e as respectivas ações a serem tomadas. Os guidelines trabalham com a mesma importância para todos os aspectos e são formulados de forma a integrar o máximo de aspectos possíveis. Os guidelines tornam-se regras maleáveis, mas mesmo assim o estudante entende que deve seguí-las a risca.
Exemplos:
A experiência prática expõe a pessoa a uma grande variedade de situações distintas. Cada uma destas situações, ao menos no início, aparenta ter a mesma extrema relevância para alcançar um objetivo a longo prazo. No entanto, neste estágio, os aspectos ganham um atributo de importância (saliência), que varia de acordo com a relevancia dela para o objetivo e o necessário tempo. Uma situação específica, confrontada em tempos diferentes pode ser vista como situações diferentes. Com um conjunto de aspectos e suas saliências detectadas imediatamente, o estudante utiliza princípios memorizados e vividos anteriormente, que agora chamamos de " maxim ", para determinar a ação apropriada a ser tomada. Este reconhecimento da experiência vivida torna-se holístico.
Exemplos:
Até este estágio, o estudante precisa de algum princípio analítico (regras, guidelines ou maxim) para conectar sua intuição de uma situação geral para uma ação específica. Agora o seu repertório de situações vividas é tão vasto que, normalmente, cada situação é imediatamente mapeada para uma ação através de sua intuição. Quase não se pensa mais em regras. Esta intuição só é possível graças a experiência adquirida com a proficiência. As tarefas começam a se tornar tão simples que muitos se esquecem que elas são complexas.
Exemplo:
O mestre é capaz de viver momentos intensos na qual sua performance transcende seu alto nível convencional. Neste estágio, a pessoa, que não necessita mais de princípios, pára de prestar atenção em sua performance e deixa toda a energia mental, previamente utilizada para monitorar a sua performance, na produção da perspectiva apropriada e sua ação quase que instantaneamente.
Em resumo, temos um quadro que associa algumas atividades mentais com o estágio atual do estudante. Analise o quadro abaixo:
| Novato | Competente | Proficiente | Expert | Mestre | |
| Memória | Não Situacional | Situacional | Situacional | Situacional | Situacional |
| Reconhecimento | Decomposto | Decomposto | Holístico | Holístico | Holístico |
| Decisão | Analítica | Analítica | Analítica | Intuitiva | Intuitiva |
| Consciência | Monitoramento | Monitoramento | Monitoramento | Monitoramento | Absorvido |
Os Dreyfus concluem o artigo indicando que as implicações desta taxonomia são óbvias em qualquer treinamento. Os instrutores devem conhecer o estágio atual do estudante e o conduzí-lo ao estágio superior, evitando comportamentos e ações que os façam alcançar uma melhor performance mas que dificultem a passagem para o próximo nível ou mesmo facilitem o retorno a um nível anterior.
Agora começam as minhas críticas. O blog Software Integrity traz um gráfico de densidades populacionais para cada estágio que não faço idéia de onde veio e não concordo que seja a realidade. Tomara que não seja uma intuição de alguém, muito menos alguém da informática. O gráfico apresenta um número maior de pessoas entre os níveis Competente, Proficiente e o que eles chamaram de Average Begginer que também não sei de onde veio e não faz sentido pra quem leu o artigo original. A meu ver os desenvolvedores de software não permanecem muito tempo no nível Competente, pois são elevados rapidamente para um nível gerencial e, numa área nova, voltam a ser iniciantes. Portanto a densidade de Competentes deveria ser menor e a de novatos, maior. Outro erro do gráfico é apresentar uma diferença linear entre os níveis. Certamente o tempo para evolução do Novato para o Competente é diferente do tempo para evoluir entre o Proficiente e o Expert.
O blog do Bruce também usa o Average Beginner e não indica de onde veio. Diz claramente que muitas pessoas nunca serão competentes, algo contrastante com o gráfico mostrado pelo blog Software Integrity, e o autor mistura comportamentos entre Competente e Proficiente, e entre Poficiente e Expert. Aliás, não leiam aquele post. Os erros de interpretação são grosseiros.
A meu ver o modelo é bom e pode ser facilmente mapeado para a informática, apesar de não existir essa necessidade. Vou me arriscar e mudar um pouco a tabela de associação que o artigo original apresenta para torná-lo mais fácil de ser entendido.
| Novato | Competente | Proficiente | Expert | Mestre | |
| Memória | Regras sem contexto | Guidelines | Guidelines + Saliências | Sem muita importância | Sem muita importância |
| Reconhecimento | Decomposto | Decomposto | Holístico | Holístico | Holístico |
| Decisão | Analítica | Analítica | Analítica | Intuitiva | Intuitiva |
| Consciência | Monitoramento | Monitoramento | Monitoramento | Monitoramento | Absorvido |
Fica a pergunta, em que estágio você se encontra?
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