Vitor Pamplona
Crônicas de um cotidiano geek

Mestrado

Postado em Aug 10, 2008 por Vitor Pamplona - Editar - História

Recentemente, algumas pessoas me fizeram perguntas bem estressantes: " Agora que você conhece Computação Gráfica, onde vai trabalhar? ", " Você vai fazer jogos? ", " Dar aulas dá dinheiro? ", etc.

Aparentemente, a maioria das pessoas acha que quem faz um curso em alguma coisa é obrigado a trabalhar com aquela coisa o resto da vida. Isto até é verdade para a maioria dos cursos técnicos e dos profissionais iniciantes, mas um mestrado ou doutorado não é um curso técnico e a maioria das pessoas não são mais iniciantes. Um curso de mestrado é algo bem diferente de um curso de PHP, por exemplo. Quando você faz um curso de PHP, é porque você vai trabalhar com PHP. Quando você faz um mestrado, nem sempre você vai trabalhar na sua área e provavelmente você nunca mais verá a sua dissertação.  

Além do mais, não existe mestrado em Computação Gráfica, mestrado em Inteligência Artificial, mestrado em Engenharia de Software. Existe mestrado em Ciência da Computação, com ênfase em CIÊNCIA. A área que você trabalha é apenas um pretexto para você fazer Ciência de verdade. Não se enganem, os cursos de Bacharel em Ciência da Computação, na verdade, tem muito pouco de Ciência e muito de desenvolvimento.  

Para vocês terem uma idéia, a minha dissertação elabora novos modelos bio-físicos para dinâmica pupilar e deformação dos padrões da íris humana. Em outras palavras, eu crio animações realistas para íris e a pupila humana para cenas de close-up em filmes de animação. Certamente, ninguém vai me contratar porque eu sei animar íris humanas, nem no Brasil, nem no estrangeiro. Até porque qualquer artista faz isso em menos de um dia. No entanto, vão me contratar porque, assim como eu fiz estes modelos, eu posso fazer outros que estejam mais relacionados a empresa. O que vale não é o que está escrito, é o que eu posso escrever de agora em diante. Eu outras palavras, o diferencial de um mestre ou doutor não está no conhecimento daquilo que ele fez, mas naquilo que ele pode fazer. Algo que não está escrito na sua dissertação ou tese, mas no que existe por trás daquilo tudo.

Por exemplo, grande parte do mercado, principalmente pequenas e médias empresas, atua por " feeling " de seus executivos e diretores. Todo " feeling " envolve um risco, grande parte das vezes, baixo. Para a maioria das " pessoas de negócios ", sofrer o risco do feeling é algo inevitável. Se você estiver certo, você lucra, se estiver errado, você perde. Na pós-graduação aprendemos que é possível testar e validar qualquer " feeling ", independente da área. Se os homens de negócios soubessem que não é necessário arriscar para ter certeza do lucro, seriam outros homens, provavelmente muito menos estressados. Na verdade, os grandes homens de negócio sabem disso, não sabem como fazer o teste, mas sabem que ele existe e contratam profissionais qualificados para isso (a.k.a. Mestres e Doutores).  

Quando me perguntam o que eu aprendi durante o mestrado, o que eu aprendi durante os 2 anos aqui na UFRGS, eu penso em várias coisas:  

  • Aprendi a tirar o máximo das placas gráficas, programando diretamente nelas.
  • Aprendi onde e como usar tudo aquilo que estudamos na graduação e no ensino médio: estatística, integrais, derivadas, complexidade, interpretação histórica de fatos da ciência, IA, etc. Realmente o que aprendemos é útil, muito útil.
  • Estudei e usei muito da física e biologia.
  • Aprendi o que é performance de verdade.
  • Aprendi a ler artigos científicos, criticá-los e revisá-los.
  • Aprendi a escrever cientificamente, de um modo que poucas pessoas ousam questionar o que está escrito.
  • Aprendi a fazer boas aulas, palestras e aprensentações.

Mas isso tudo é apenas conhecimento técnico. Conhecimento técnico é só 20% do que se aprende em bons cursos de mestrado. Como e quando usar as técnicas, como ensinar de maneira correta e como motivar a platéia e a sua equipe fazem parte dos outros 80% de conhecimento:  

  • Aprendi que o " feeling " de qualquer pessoa está, muitas vezes, errado.
  • Aprendi que interfaces são muito mais importantes que qualquer outra parte do sistema.
  • Aprendi a competir por algo sempre muito melhor, e não apenas melhor ou diferente. Se não for muito, muito melhor, não vale a pena o esforço.
  • Aprendi a olhar e a entender o mundo, suas culturas e sua história, a fim de entender os processos produtivos e a motivação de cada pessoa em cada região.
  • Aprendi a juntar informações, a identificar riscos e a eliminar inconsistências, não só quando eu paro um tempo para fazer isso, mas em qualquer situação, quase automaticamente
  • Aprendi que muito do que achamos que é verdade, é verdade apenas em um contexto
  • Aprendi que densidade é melhor que quantidade e melhor que qualidade
  • Aprendi que alguns tipos de conhecimento não podem ser ensinados. E que algumas pessoas nunca entenderão certas coisas.
  • Aprendi que nem sempre o mais comum é o melhor. Nem mesmo o estilo de vida mais comum.
  • Aprendi a testar os meus limites, a estar quase sempre no limite.  
  • Aprendi que ainda preciso aprender muito, muito mais do que eu imaginava.

Em suma, eu aprendi a fazer e a viver ciência e a olhar o mundo dos negócios com outros olhos. Fazer eles trabalharem para mim ao invés de eu para eles.  

Não sei se vocês entenderam, mas acreditem em mim. A pós-graduação faz as pessoas verem coisas que nunca antes viram. É uma experiência excelente, mas que poucas pessoas entendem e dão valor. Assim como há conhecimento que não pode ser ensinado, o mestrado é algo que não pode ser entendido completamente por alguém que não passou pela experiência. Da mesma forma que eu não vejo claramente a diferença de ser um Doutor, da mesma forma que a maioria das pessoas não entende a frase: " Os pobres trabalham pelo dinheiro, e o dinheiro trabalha para os ricos ", é provável que muitos leitores deste blog não consigam entender a diferença de um Mestre. Não sei em qual outro lugar vc pode aprender tanta coisa em tão pouco tempo.

Preciso ir. Eu ainda tenho muito o que aprender.

As seguintes páginas estão falando sobre "Mestrado":

Comentários


E o pé no chão? Não acha que é bom ter não?

- - asdlfkj
Postado em Apr 6, 2008 por 201.67.104.208

Uma observação:
- Não sei como é o curso de Ciências da Computação da FURB, mas posso te dizer que Ciências da COmputação da UFSC, pelo menos até 2003 era sim CIENTÍFICO, não voltado para desenvolvimento.... menos né Vitor

[] s

- - André
Postado em Apr 7, 2008 por 200.103.143.8

E eu aqui pensando que boa parte do que realmente valeu a pena aprender na universidade eu aprendi... fora da sala de aula.

" Aprendi que alguns tipos de conhecimento não podem ser ensinados. E que algumas pessoas nunca entenderão certas coisas. "

E quem explica - ou tenta - não tem culpa?

valeuz...

- - Marcos Silva Pereira
Postado em Apr 8, 2008 por 189.70.51.1

Desculpe André, mas o curso de graduação é naturalmente mais desenvolvimento do que científico. Claro, existem algumas exceções de alunos que buscaram a ciência, mas para a maioria é desenvolvimento. Até para os professores é desenvolvimento. Você publicou algum artigo em journal ou conferência durante a sua graduação? (Que não seja o TCC?)

Oi Marcos, em certos casos quem explica não tem muito o que fazer mesmo. O verdadeiro ensino acontece quando a pessoa se toca daquilo que o seu instrutor quer, sem o instrutor sequer tocar no assunto. Porém, alguns detalhes são tão longe da realidade da pessoa que ela simplesmente não entende. Foi isso o que aconteceu e, até hoje acontece, com a XP. Tem gente que simplesmente não está preparada para entendê-la.

[] s

Postado em Apr 8, 2008 por Vitor Pamplona

Saudações...

Você poderia ser um pouco menos arrogante... um pouco... O " título " de mestre subiu à cabeça...

Mesmo assim, o blog / wiki está bacana... continue se esforçando e " com os pés no chão " como foi dito em outro comentário...

Abraços...

- - Eduardo
Postado em Apr 13, 2008 por 200.146.116.134

E ai Vitor,

É isso ai cara, as pessoas estão acostumadas a receber informação, como no jornal nacional, sem questionar o que esta sendo passado. Nesse seu artigo você passa conhecimento, o que é muito difícil de absorver, que foi o caso dos seus inquisitores acima. Você apresentou sua visão que foi verdadeiramente ampliada pelo menstrado, mas as pessoas veêm isso como arrogância. Não te preocupa, na sua carreira vão aparecer milhões de pessoas querendo te fazer menos do que você é. Faz parte do teu aprendizado lidar com gente desse tipo. Não to puxando teu saco, mas te acompanho a muito tempo e sei que és esforçado e fazes as coisas acontecerem. Cara concordo com tudo que vc expôs acima continua ampliando tua visão na área técnologica, e ignora os que criticam sem argumentação válida, pois jogar a pedra é mais fácil que receber a pedrada.

Parabens, e grande abraço


Ps.: O André do comentario anterio não sou eu tah?!! ehehe.

- - Andre Bohn
Postado em May 14, 2008 por 201.2.220.210

Seu Nome:


Escreva o código existente na figura acima no texto abaixo.