
Frase para lembrar: Quem trabalha pela própria honra e ego o faz gratuitamente.
Quem nunca pensou em publicar um artigo na JavaMagazine ou na MundoJava e ficar famoso? O processo é bem simples, você escreve um artigo ou um tutorial bom , caprichado, e submete na página da revista. Em pouco tempo seu trabalho será avaliado. No caso de uma avaliação positiva eles entram em contato pedindo ajustes e já combinam uma data para publicação. A partir daí é só esperar para ver o seu nome e currículo na revista, e, claro, segurar o assédio dos fans. Muito legal e fácil não é? Pois é, seria.
Este tipo de trabalho é visto como um trabalho voluntário. No entanto, não é um trabalho voluntário para ONGs socio-ambientais, é um trabalho voluntário para empresas e na área de atuação profissional do indivíduo. Ou seja, o que deveria ser o sustendo dele e de sua família é dado de graça. Parece brincadeira, mas é um legítimo e lucrativo modelo de negócio que todos nós conhecemos bem. Trata-se de uma nova forma exploração, uma exploração psicológica que se expandiu junto com a globalização, na era pós-industrial: os escravos do próprio ego.
Para entendermos, vamos inverter o jogo. Ao invés de autor, imagine-se do lado da empresa e analise o modelo de negócio de uma revista técnica qualquer. Enquanto que uma revista tradicional mantém um conjunto de jornalistas e editores contratados, as revistas técnicas não tem esse gasto ou o tem reduzido, devido ao fato de receberem periodicamente artigos interessantes que precisam apenas de lapidação. Algumas sequer mantém equipes de revisão, afinal se o autor escreveu apenas para ter o seu nome na revista, um revisor pode revisar e ganhar o mesmo. Uma revista se mantém com as suas vendas nas bancas, assinaturas e com as propagandas em páginas selecionadas. Ora, uma propaganda em uma revista técnica, por atingir um público específico, tem um custo muito superior das revistas normais. Juntando tudo, elas utilizam-se da vontade de aparecer dos autores para preencherem o espaço dos artigos sem custo algum, ganham o seu lucro e não dão nenhum bônus financeiro ao autor.
Alguns argumentariam que o Software Livre e a Wikipedia também se classificariam neste tipo de exploração, no entanto, tanto o software livre quando a wikipedia estão baseadas, geralmente, em ONGs. Quando um projeto de software livre tem uma empresa lucrando por trás, é muito difícil ter cooperação da comunidade, a não ser, é claro, que aquela empresa recompense bem os desenvolvedores livres. No entanto, não vou negar, pode-se sim ter este tipo de exploração também com Software Livre. Não vou acusar ninguém, mas pense a respeito.
Na área acadêmica esse tipo de exploração é mais presente. Como, no brasil, um pesquisador é avaliado pelo número de publicações que possui, ele é obrigado a enviar artigos gratuitamente e periodicamente para eventos e revistas que, certamente, possuem " publishers " lucrando por trás. Além disso, alguns pesquisadores em prol de um contato maior com outros da mesma área, tanto no brasil quanto no exterior, revisam gratuitamente artigos submetidos para estas revistas. Tanto a submissão, quando a revisão de um artigo, exigem muitas horas trabalhas, afinal seu nome está em jogo, você não pode dar bobeira. No caso de submissão, os textos são, normalmente, resultado de meses de trabalho de um graduando, mestrando ou doutorando. No caso da revisão, algumas horas ou dias de mestrandos ou doutorandos. Como o valor hora desse pessoal não é baixo, imagine o custo se as empresas tivessem que pagar para publicar trabalho. No final, se for publicado, o autor não recebe nada além do crédito pelo seu trabalho, e o revisor, nada além de ter seu nome na página de revisores.
Há muito tempo eu venho pensando sobre esse modelo, mais precisamente, em formas de corrigir essa injustiça. Acredito que a solução mais simples e fácil é estipular um bom prêmio por artigo publicado. Se o seu artigo for publicado, você ganha 1.000,00 reais e o revisor dele R$ 500,00. Se uma revista publica 8 artigos de terceiros por edição, terá um gasto de 12.000,00 reais. Como poucas iriam fazer isso, estas revistas receberiam mais artigos e, em consequência, poderiam escolher só os melhores. Afinal quem não quer ficar famoso e ainda ganhar um trocado? Se a revista é mensal e você conseguir escrever um bom artigo para cada edição, quem sabe você não se mantém só escrevendo artigos?
Não tenho nada contra uma pessoa que queira demonstrar seu conhecimento ou trabalho ao público, mas tenho contra quando esta pessoa trabalha, sem saber, para uma outra ganhar dinheiro. Faça um blog, ajude alguma comunidade, trabalhe numa ONG, mas não trabalhe de graça para uma empresa. Isso é sacanagem.
As seguintes páginas estão falando sobre "Escravos do próprio ego":
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