Vitor Pamplona

Innovation on Vision: Imaging , Enhancement and Simulation

Reconhecimento Científico

 Quando eu escrevi sobre os Escravos do próprio ego muita gente questionou meus argumentos com o de reconhecimento pessoal. Ou seja, você não ganha nada quando escreve artigos porque é a sua reputação que está em jogo. Você pode valorizar o seu currículo e aumentar sua reputação perante a comunidade. O problema é que reconhecimento pessoal por artigos só funciona num mundo ideal, muito longe da nossa realidade. Vou mostrar.

No Brasil a maioria dos pesquisadores (para não dizer todos) são também professores e estão alocados nas universidades. Como cada pesquisador cumpre as tarefas de um professor e assume papéis burocráticos, o tempo que resta para pesquisa é muito pouco. Por este motivo, no Brasil e em algumas partes do mundo, quem faz a pesquisa são os estudantes. Por um lado, é bom para os estudantes, por outro é ruim para os orientadores, pois a grande paixão deles é, de fato, a pesquisa. Muitos deles largariam tudo para ficar só bolando novas teorias, novas idéias, novos conceitos. Mas, como um emprego assim é praticamente impossível, suportam a problemática vida acadêmica em troca de algumas horas de prazer.

O governo brasileiro e muitas universidades privadas utilizam um sistema de avaliação do pesquisador que é orientado ao número de publicações e sua qualidade. A qualidade de cada publicação é definida por critérios pra lá de inconsistentes e questionáveis pela Capes. Cada evento ou journal recebe conceitos A, B e C e uma classificação de nacional ou internacional. Dar nota para um evento não é uma coisa tão simples. Tem muito evento ruim sendo considerado como A, assim como tem alguns medianos que sequer são rankeados. Eventos e journals internacionais são mais importantes do que eventos nacionais, porém muitos lá fora não são tão bons quanto os daqui, no entanto é preferível mandar para lá.

Estas falhas de avaliação e a constante pressão por artigos influenciam muitos pesquisadores a publicar " qualquer coisa ". Idéias que não deram certo, idéias absurdas, artigos extremamente específicos, inúmeras assumptions para algo funcionar, artigos sem validação, com vários pontos em aberto, artigos com resultados forçados, idéias ruins aprovadas por causa de uma boa escrita (leia-se enganação) e por aí vai. Nestes dois anos que acompanho e participo do mundo acadêmico, vi muita coisa legal, mas também muita coisa feia. Gente publicando simplesmente porque precisa da publicação para continuar no emprego, simplesmente para se achar, ou para aumentar os recursos enviados ao seu projeto. Tudo por causa deste maldito ranking da Capes. Além do mais, brasileiro é brasileiro, adora " facilitar as coisas ".

Em outras partes do mundo não há classificação de journal ou evento. Há apenas a classificação do artigo especificamente. O melhor artigo é aquele que possui mais citações, ou seja, aquele que fez com que outras pessoas trabalhassem no tema. O melhor pesquisador é o profissional que possui mais citações em todos seus artigos (e não várias citações em apenas um). O chamado Fator H. Talvez mais justo e menos questionável, mas também com problemas. O principal deles é como numerar as citações, sendo que muitos journals, teses, dissertações, monografias, artigos de revista nem aparecem na internet?

 Quando, hoje, me perguntam se ter uma publicação vale alguma coisa, eu digo imediatamente que não vale nada. Não vale nada porque existem pessoas muito mais preocupadas em competir entre si, do que interessadas na boa evolução da ciência. A publicação mostra apenas que você sabe vender a idéia, mas não garante que esta idéia seja boa. Algo semelhante com um blog, eu posso criar o melhor texto, como posso vomitar qualquer coisa. Tenho uma publicação, mas só se descobre se ela é boa ou não na hora da implementação. Aí é que o bicho pega. Outra comparação é com as certificações. As pessoas estudam para ter o certificado e não para ter o conhecimento. Você tem o certificado, mas nada garante que você permanecerá com o conhecimento referido durante os anos seguintes.

Infelizmente aquelas publicações mau intencionadas não ocorrem apenas no meio estritamente científico. Várias revistas não são dignas de respeito. Assim como vários livros também não. Vários softwares também não. A internet é cheia disso. Por este motivo, ao publicar algo, como este post, por exemplo, eu mesmo não espero um reconhecimento maior. Pelo menos não da maioria das pessoas ligadas a informática. Quando eu publico eu organizo as minhas idéias e dificilmente esqueço o que escrevo. Pouco me importa se vai ser útil ou não para as outras pessoas, o que me interessa é a minha evolução durante a escrita.

Todos estes problemas em relação a obrigatoriedade de publicações e a maneira incorreta como o mundo as vê (com extremismo: toda a publicação é boa), me faz refletir sobre continuar ou não no meio acadêmico. Após o Mestrado, já abrem-se as portas do doutorado científico-acadêmico, do qual me distancio a cada dia que passa.

No doutorado, você tem 4 anos para construir a sua Tese, deve ser algo novo e publicável. No entanto, o que acontece se passa os 4 anos e você não teve nenhuma idéia revolucionária? Você publica qualquer coisa, escreve sobre algo teoricamente novo, ou melhor, algo diferente mas não necessáriamente bom e, com um pouco de sorte, bingo. Você tem uma Tese. Não é isso que eu quero. Vejam, não estou falando que todas as Teses são ruins, mas existem várias que não são dignas de serem Teses.

A meu ver, quando uma pessoa opta por fazer ciência, ela não pode ser pressionada. Isso fará com que ela abandone as idéias ruins, mesmo que tenha passado muito tempo em cima delas. O doutorado não deveria ser feito em apenas 4 anos, deveria ser ilimitado, e não deveria necessitar de tempo integral, pois grande parte das nossas idéias ocorrem quando estamos longe do assunto, despreocupados com a vida e provavelmente tomando umas por aí. Deveria sim ser algo mais livre e menos cansativo para, assim, gerar melhores resultados.

Por este motivo eu digo que as editoras deveriam pagar por cada artigo enviado. Afinal, um artigo não vale nada no meu currículum. E se perguntarem por que que eu continuo colocando as publicações no meu Currículum, eu respondo que as coloco alí porque ainda não consegui mudar o mundo (:)). Certamente, quem lê este blog sabe muito mais sobre mim do que se estudasse o meu currículum.

Abaixo um vídeo sobre o verdadeiro espírito de um cientista.

 

 

Posted in Jan 27, 2009 by Vitor Pamplona - Edit - History

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BELO ARTIGO! O PROBLEMA HODIERNO É QUE TODO MUNDO SE ACHA CAPAZ DE ESCREVE E DE CRIAR ALGO INÉDITO.

PARABENS PELA SOBRIA VISÃO.

VÍDEO INTERESSANTE.

- - marcosusque@hotmail.com

- - Posted in Aug 10, 2009 by 187.7.243.173



- - Gilberto

- - Posted in Feb 11, 2010 by 187.4.67.51



- - Gilberto

- - Posted in Feb 11, 2010 by 187.4.67.51



- - Gilberto

- - Posted in Feb 11, 2010 by 187.4.67.51



- - gg

- - Posted in Feb 11, 2010 by 187.4.67.51

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