Vitor Pamplona

Innovation on Vision: Imaging , Enhancement and Simulation

Publicando Ciência

NETRA ProjectNETRA é o maior projeto científico em que já trabalhei. Além do artigo principal ser publicado no ACM SIGGRAPH, a maior conferência da área (Computação Gráfica e Interação Humano-Computador), o projeto conquistou prêmios, bolsas de pesquisa, foi finalista em diversas competições, convidado para vários congressos, recebeu mais de 170 artigos na imprensa internacional, 30 em agências brasileiras (Galileu, Estadão, Veja, entre outros), e 21.000 posts relacionados. Hoje, o projeto conta com mais de 30 colaboradores ativos e estamos prontos para iniciar a etapa de distribuição dos protótipos onde outras 50 instituições receberão nosso aparelho para testes. O site do projeto recebe aproximadamente 150 visitantes únicos diários, dos quais 48% são americanos, 16% europeus, 5% brasileiros e 5% indianos. Dentre todas as notas de imprensa, a que mais gerou acesso ao site foi o Slashdot, com 3000 acessos diários. CNN e BBC nem fizeram cócegas em nossas estatísticas.  
 
Apesar do SIGGRAPH ser uma conferência muito importante e prestigiada, o artigo científico não foi responsável por gerar estes números. O artigo é apenas o início, é a sustentação, as vigas, de todo o resto. O gatilho da imprensa foi a conquista do MIT IDEAS, uma competição interna do MIT para premiar projetos de alto impacto no serviço público e desenvolvimento social. A versão do IDEAS levou o prêmio 4 meses após a submissão do artigo. Foram 4 meses de trabalho intenso em desenvolvimento de protótipos estáveis, pesquisa de mercado para o plano de negócio, apresentações para angels e venture capitals, estratégias e contatos para manufatura e distribuição em massa, regulamentação em diversos países, pesquisa e aplicação de patentes, e análise de custo e valor de venda. Margaret McKenna, consultora para distribuição de tecnologia em países em desenvolvimento e Chika Ekeji, empreendedor e formando na business school do MIT foram essenciais nesta etapa. No artigo, por exemplo, só há duas menções a developing world como trabalhos futuros e o protótipo usando celulares mal foi mencionado.  
 
Após a vitória no IDEAS e a conquista das finais do MIT $100K, competição de empreendedorismo, o departamento de imprensa do MIT mostrou interesse em publicar a versão apresentada na competição e havia forte tendência em deixá-la em destaque na página principal da instituição. Levamos 1 mês para preparar site, vídeos, animações, fotos e slides. O Media Lab, departamento onde trabalho, montou um lab-cast (vídeo promocional) e o que chamamos de press package: um conjunto de instruções, textos e multimídia específicos para jornalistas. A ideia era lançar a notícia do departamento de imprensa, o press package, e o lab-cast no mesmo dia do destaque na página principal do MIT (ação conhecida como press release). Recebemos treinamento de como lidar com jornalistas, o que vestir nas entrevistas e como melhor usufruir do que estaria por vir. No mês inteiro, vi a estrutura do MIT e do Media Lab ao nosso dispor.  
 
Três dias antes do press release, havíamos contatado vários jornalistas. O press package já circulava nas entranhas da mídia e eu já havia enviado mensagens para vários colegas no Brasil, incluindo Galileu, Veja, Folha, Globo, Jornal Nacional, Ciência Hoje, Scientific American, Super Interessante, Fantástico e Estadão. Alguns não responderam em tempo (outros nem responderam), mas os que responderam, conseguiram lançar reportagens junto com a imprensa internacional. O mesmo foi feito para a Índia e Europa. Não conseguimos trabalhar até uma semana após o press release: ficamos só atendendo a imprensa. O processo continou até meados de agosto / setembro quando as redes de televisão começaram a publicar.  
 
Em outubro decidimos baixar a prioridade do " blá-blá-blá " no projeto. Voltamos a dar prioridade à pesquisa 8 meses após a submissão do artigo. Nesse meio tempo, participamos de outras competições, prêmios, talks, conferências e escrevemos projetos de pesquisa. Criamos novos protótipos, puzzles e teorias, mas nenhum desenvolvimento científico significativo. Por exemplo, enviamos uma proposta de 1 milhão de dólares para o Grand Challenges in Global Health da Gates Foundation. Infelizmente não fomos aceitos por estar fora das áreas de foco do programa (doenças infecciosas), mas conquistamos excelentes contatos. Nossa start-up está pronta para ser lançada e o projeto ainda está sob nosso controle.  
 
Todo este esforço incomum para a academia trouxe os números do primeiro parágrafo. Em relação a imprensa, as mais importantes lições que aprendi são:  

  • Todo o jornalista vê a publicação de artigo científico como algo corriqueiro na vida de um cientista (e de fato é). Portanto, eles não cobrirão a publicação de um paper, da mesma forma que não publicam fatos curriqueiros de outras profissões. Os prêmios e distinções são, portanto, indispensáveis para aumentar os diferenciais do projeto para o público leigo e gerar a notícia.
  • O papel da instituição é fundamental para convencer os jornalistas que o projeto vale uma reportagem. É a instituição que indica qual projeto deve ser observado pela imprensa. Se o cientista criar o press package sozinho não terá crédito suficiente para barganhar o jornalista.  
  • Os cientistas / inventores precisam deixar que o jornalista escreva livremente sobre o projeto. Todas as vezes que nós intervíamos nos textos dos jornalistas, houve baixa aceitação, crítica ou rejeição da nota. Nenhum jornalista gosta de ser corrigido em aspectos não técnicos da nota.  
  • Mesmo estando no MIT, com todo o apoio da universidade, a caça aos jornalistas de ciência foi tarefa dos inventores / cientistas. Fomos nós que entramos em contato oferecendo o press package do MIT e não o contrário. Se não fosse por este esforço, nem 5% da imprensa teria cobrido o projeto.  
  • Vista-se bem, todo o tempo. Se você lançou um press package, a qualquer momento pode aparecer um jornalista para gravar um vídeo com você. Pode ser para um blog ou para a CNN. Normalmente, eles não avisam quando vem. Esteja pronto quando isso ocorrer. T-shirt nem pensar. Dica: traga uma camiseta social e deixe no lab. Quando precisar, só vista por cima.  
  • A comunidade científica assiste TV e lê jornais. Hoje todo mundo reconhece o protótipo. Imprensa é bom pra todo mundo.

Espero que eu consiga fazer este trabalho mais vezes. Será difícil no Brasil. A cultura acadêmica brasileira é muito difícil de mudar. A ânsia por publicação não permite ficar 8 meses sem avanços e os índices de qualidade da pesquisa brasileira infelizmente não consideram impacto social, artístico ou econômico. A falta de departamentos de imprensa e a completa ausência de jornalistas dentro da universidade dificultam o contato. Orientadores com nenhuma experiência, baixo networking ou mesmo vontade / interesse de conduzir trabalhos como este só pioram a situação. Os jornalistas precisam de nós, nós precisamos deles e o povo precisa de mais informação científica.

Posted in Nov 6, 2010 by Vitor Pamplona - Edit - History

Showing Comments

O que impede de realizar esse tipo de pesquisa aqui no Brasil? Eu sei de vérias coisas que impedem, mas quero saber tua opinião. =)

- - Renato

- - Posted in Oct 24, 2010 by 189.6.148.89

Cultura. Quero ver vc convencer quem manda que isso é importante.

- - Vitor Pamplona

- - Posted in Oct 24, 2010 by 18.85.54.250

porra bixo... parabéns por toda essa trajetória!


grande abraço e sucesso.

- - Giovane Kuhn

- - Posted in Oct 25, 2010 by 200.188.253.42

Atrasado, mas parabéns por todo o trabalho. Obrigado por ajudar a melhorar a imagem do nosso país no exterior. Lamento muito, apenas, pelo que você descreveu no último parágrafo.

- - Marcio Tavares

- - Posted in Nov 8, 2010 by 200.142.126.94

Cara,
tava lendo uma reportagem na info...
ai quando vi a foto, sabia que era você.... ehehehe
parabens pelo trabalho...
desejo todo sucesso...

Att
Fernando, ou melhor, (Bolsista) " João " do LCI da FURB... hehehe

- - Fernando

- - Posted in Nov 12, 2010 by 186.212.50.229

Cara,
tava lendo uma reportagem na info...
ai quando vi a foto, sabia que era você.... ehehehe
parabens pelo trabalho...
desejo todo sucesso...

Att
Fernando, ou melhor, (Bolsista) " João " do LCI da FURB... hehehe

- - Fernando

- - Posted in Nov 12, 2010 by 186.212.50.229

Vitor, meus parabéns pelo sucesso e também por fazer esse interessante relato da trajetória do projeto. Acabei de vir da biblioteca da Furb onde vi uma reportagem da Info falando do seu projeto. Fico muito orgulhoso de ver uma pessoa que vi na universidade chegando onde você chegou! Continue na luta, com certeza vai valer a pena.

Abraços,
Mauricio Bruns

- - Mauricio

- - Posted in Nov 13, 2010 by 200.101.241.213

cara parabens!

- - Ed Pichler

- - Posted in Nov 18, 2010 by 189.86.74.114

Parabéns pelo trabalho e, principalmente, por tudo que foi aprendido.

O último parágrafo, entretanto, me deixa triste... Pois sabemos que nem todo trabalho é um tcc com um tempero diferente. Ou a continuação de um trabalho de Mestrado. Ou aquele trabalho de disciplina que ficou melhor do que esperavam. Ou, pior ainda, o reaproveitamento da boa ideia de outro...

O Brasil não está preparado para a culturado da ousadia. É melhor um trabalhinho que publique alguma coisinha do que algo que possa realmente mudar o mundo. Mudar o mundo geralmente é complicado e pode não dar certo. Risco é algo simplemente abominado por aqui (por mais que possa ser minimizado).

Apesar das dificuldades, espero que com o crédito que ganhaste possa ir mais longe. Espero que este trabalho seja só o começo de trabalhos cada vez mais interessantes e ousados. Sucesso!

- - Henrique

- - Posted in Dec 18, 2010 by 201.37.184.143

Passei pelo seu blog e queria dar os parabéns pela pesquisa, Vitor. Você já está voando bem alto e cruzou a linha entre pesquisa e tecnologia. Há uma boa distância entre um trabalho de pesquisa que conta para conseguir uma titulação acadêmica, e um trabalho que pode resultar em um produto que mude para melhor a vida das pessoas.

Um abraço!

- - Juliano Camargo

- - Posted in Feb 4, 2011 by 187.49.239.2

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