Vitor Pamplona

Innovation on Vision: Imaging , Enhancement and Simulation

Modelo de Dreyfus para aprendizado

 O modelo de Dreyfus separa, orientado ao modo de pensar do aluno, as etapas de aprendizagem durante um processo de aquisição de alguma habilidade. O modelo se encaixou tão bem com a descrição que o pessoal da computação apresentou, que eu começei a duvidar da veracidade das informações. Corri atrás do artigo original, publicado nos anos 80 e entitulado " A Five-Stage Model of the Mental Activities Involved in Directed Skill Acquisition ". Para minha irritação, tem gente tirando coelho da cartola, inventando coisas e botando palavras nos textos dos gênios da psicologia. Abaixo vou tentar descrever o artigo original (sou péssimo para traduções) e a seguir fazer alguns comentários.  

Stuart e Hubert Dreyfus primeiramente questionam a validade dos experimentos de psicologia e filosofia feitos em ambientes controlados, muitas vezes em situações ideais ou artificiais. Citando vários trabalhos e pesquisadores anteriores, os dois concluem que um ambiente controlado dificilmente ocorrerá na prática, no dia a dia, e para os estudos de psicologia o contexto do experimento, assim como a forma como ele é apresentado e a afinidade dos voluntários com as tarefas, é extremamente importante, sendo quase impossível separar a influência de cada variável do problema a ser estudado. O modelo de cinco estágios que eles criaram foi baseado em depoimentos daqueles que aprendiam alguma habilidade na vida real e não em um experimento, portanto a validação da hipótese proposta por eles não sofreu influência de qualquer variável controlada.

Ao contrário do que era aceito na época (não sei se ainda é aceito hoje), de que a proficiência em uma habilidade aumenta a medida em que o conhecimento sobre ela se movia de concreto para abstrato, a hipótese dos Dreyfus seguiu uma linha na qual uma habilidade, em sua forma inicial, é produzida seguindo regras formais abstratas, mas somente a experiência com casos concretos pode levar a altos níveis de performance e expertise. Um entendimento detalhado dos cinco estágios pessoais: Novato, Competente, Proficiente, Expert e Master; auxiliaria os programas de treinamento de elite que, independente do modelo de aprendizagem adotado, devem se adaptar ao estágio atual ou transição em que cada pessoa se encontra, afim de atacar a maneira de pensar do próximo estágio. A seguir, veremos os detalhes de cada um dos estágios propostos por eles.

Estágio 1: Novato ou iniciante.

O processo de instrução inicia com a decomposição de uma atividade em características livres de contexto, as quais o iniciante pode reconhecê-las sem necessidade de experiência. Ao notar estas características, o novato começa a formar regras para determinar que ação tomar para cada uma delas. Para ele, as regras são invioláveis e absolutas. O novato busca constantemente uma confirmação, seja por observação própria ou por um feedback, de que ele está seguindo as regras. E, para ele, quanto mais seguí-las, melhor ele será.

Exemplos:

  • Um estudante de inglês pode ser classificado como novato quando ele aprende as regras fonéticas para produção e reconhecimento da língua que, são vistas por ele como ruídos sem expressão dos quais obtém resultados específicos quando produzidos em ocasiões específicas.
  • Um jogador de xadrêz novato vê as peças como elementos independentes, livres de contexto e conhece regras simples como calcular o valor de seu jogo através da soma dos valores independentes de todas as peças.

Estágio 2: Competente.

Competência vem após uma considerável experiência em situações reais nas quais o estudante nota, ou o instrutor aponta, padrões recorrentes também chamados de aspectos. Estes componentes situacionais não são mais apenas características livres de contexto, são inter conectadas e dependem do ambiente em que a pessoa se encontra. O instrutor pode formular princípios, ou guidelines, mapeando estes aspetos baseados na experiência vivida e as respectivas ações a serem tomadas. Os guidelines trabalham com a mesma importância para todos os aspectos e são formulados de forma a integrar o máximo de aspectos possíveis. Os guidelines tornam-se regras maleáveis, mas mesmo assim o estudante entende que deve seguí-las a risca.

Exemplos:

  • O estudante de inglês atinge o grau de competência não somente quando produz frases sem sentido, mas quando percebe frases propositais que, utilizadas em momentos apropriados, aumentam a intensidade ou a clareza do que se pretende dizer.
  • Alguns aspectos típicos dos jogadores de xadrez são: falta de proteção ao rei, muito avançado e estrutura desbalanceada de peões. O jogador competente sabe como diminuir ou eliminar estes problemas.

Estágio 3: Proficiente

A experiência prática expõe a pessoa a uma grande variedade de situações distintas. Cada uma destas situações, ao menos no início, aparenta ter a mesma extrema relevância para alcançar um objetivo a longo prazo. No entanto, neste estágio, os aspectos ganham um atributo de importância (saliência), que varia de acordo com a relevancia dela para o objetivo e o necessário tempo. Uma situação específica, confrontada em tempos diferentes pode ser vista como situações diferentes. Com um conjunto de aspectos e suas saliências detectadas imediatamente, o estudante utiliza princípios memorizados e vividos anteriormente, que agora chamamos de " maxim ", para determinar a ação apropriada a ser tomada. Este reconhecimento da experiência vivida torna-se holístico.

Exemplos:

  • O estudante torna-se habilitado em combinar frases em grandes sentenças, com cláusulas subordinadas que permitem a ele descrever situações completas e usar a língua para ordenar, demandar, pedir, etc.
  • O jogador de xadrez agora vê seus aspectos, como a estrutura desbalanceada de peões, como irrelevante ou crucial para algum objetivo estratégico. Ele pode agora chamar proprositadamente a atenção de seu adversário para desviá-lo de alguma estratégia planejada.      

Estágio 4: Expert

Até este estágio, o estudante precisa de algum princípio analítico (regras, guidelines ou maxim) para conectar sua intuição de uma situação geral para uma ação específica. Agora o seu repertório de situações vividas é tão vasto que, normalmente, cada situação é imediatamente mapeada para uma ação através de sua intuição. Quase não se pensa mais em regras. Esta intuição só é possível graças a experiência adquirida com a proficiência. As tarefas começam a se tornar tão simples que muitos se esquecem que elas são complexas.

Exemplo:

  • O estudante de inglês não percebe mais que está utilizando regras, ele simplesmente monta as frases como achar mais apropriado.  
  • O jogador de xadrêz já estudou por tanto tempo o tabuleiro que diversos arranjos das peças o remetem as alternativas discutidas em jogos anteriores.

Estágio 5: Mestre (Nada a ver com o título de Mestrado)  

O mestre é capaz de viver momentos intensos na qual sua performance transcende seu alto nível convencional. Neste estágio, a pessoa, que não necessita mais de princípios, pára de prestar atenção em sua performance e deixa toda a energia mental, previamente utilizada para monitorar a sua performance, na produção da perspectiva apropriada e sua ação quase que instantaneamente.

Em resumo, temos um quadro que associa algumas atividades mentais com o estágio atual do estudante. Analise o quadro abaixo:

  Novato
Competente
Proficiente
Expert Mestre
Memória
Não Situacional
Situacional
Situacional Situacional Situacional
Reconhecimento Decomposto
Decomposto
Holístico
Holístico
Holístico
Decisão Analítica
Analítica Analítica Intuitiva
Intuitiva
Consciência
Monitoramento
Monitoramento Monitoramento Monitoramento Absorvido

 

 Os Dreyfus concluem o artigo indicando que as implicações desta taxonomia são óbvias em qualquer treinamento. Os instrutores devem conhecer o estágio atual do estudante e o conduzí-lo ao estágio superior, evitando comportamentos e ações que os façam alcançar uma melhor performance mas que dificultem a passagem para o próximo nível ou mesmo facilitem o retorno a um nível anterior.

Agora começam as minhas críticas. O blog Software Integrity traz um gráfico de densidades populacionais para cada estágio que não faço idéia de onde veio e não concordo que seja a realidade. Tomara que não seja uma intuição de alguém, muito menos alguém da informática. O gráfico apresenta um número maior de pessoas entre os níveis Competente, Proficiente e o que eles chamaram de Average Begginer que também não sei de onde veio e não faz sentido pra quem leu o artigo original. A meu ver os desenvolvedores de software não permanecem muito tempo no nível Competente, pois são elevados rapidamente para um nível gerencial e, numa área nova, voltam a ser iniciantes. Portanto a densidade de Competentes deveria ser menor e a de novatos, maior. Outro erro do gráfico é apresentar uma diferença linear entre os níveis. Certamente o tempo para evolução do Novato para o Competente é diferente do tempo para evoluir entre o Proficiente e o Expert.

O blog do Bruce também usa o Average Beginner e não indica de onde veio. Diz claramente que muitas pessoas nunca serão competentes, algo contrastante com o gráfico mostrado pelo blog Software Integrity, e o autor mistura comportamentos entre Competente e Proficiente, e entre Poficiente e Expert. Aliás, não leiam aquele post. Os erros de interpretação são grosseiros.

A meu ver o modelo é bom e pode ser facilmente mapeado para a informática, apesar de não existir essa necessidade. Vou me arriscar e mudar um pouco a tabela de associação que o artigo original apresenta para torná-lo mais fácil de ser entendido.

  Novato
Competente
Proficiente
Expert Mestre
Memória
Regras sem contexto Guidelines
Guidelines + Saliências Sem muita importância
Sem muita importância
Reconhecimento Decomposto
Decomposto
Holístico
Holístico
Holístico
Decisão Analítica
Analítica Analítica Intuitiva
Intuitiva
Consciência
Monitoramento
Monitoramento Monitoramento Monitoramento Absorvido

 

Fica a pergunta, em que estágio você se encontra?

Posted in Dec 4, 2008 by Vitor Pamplona - Edit - History

Showing Comments

Nossa, parabéns pelo post.
Era algo que eu realmente não conhecia.

(http://www.elirios.com)

- - Eli Rios

- - Posted in Jul 15, 2008 by 200.136.27.3

Já tinha lido esse artigo, realmente boa tradução.
Valeu relembrar.
Parabéns.

- - Christian

- - Posted in Oct 28, 2009 by 200.175.53.12

Olá Vitor!

Primeiramente parabéns pelo excelente artigo!

Um pensamento que me veio a cabeça quando li que os desenvolvedores de software ficam pouco tempo no nível Competente, foi o de que tais profissionais tem uma boa chance de não se desenvolverem com a mesma eficiência de antes, na nova área de atuação.

Acredito que podem ser vários, os fatores que influenciam tal tendência, dentre os quais destaco:

- O profissional já está numa situação financeira muito boa;
- Ele acredita que está no pico da sua carreira profissional;
- A pessoa não tem o mesmo interesse e prazer na nova área.

O ponto que quero chegar, é que o mercado em geral, não considera muito a competência do profissional na sua área, e isso acaba levando com que vários profissionais tenham as suas carreiras " direcionadas " ao mercado e não ao que sabem e gostam de fazer.

Se tiver alguma consideração a fazer sobre esse pensamento / viagem sinta-se à vontade.

Abraços

- - Fabrício Ferrari de Campos

- - Posted in May 23, 2010 by 201.95.22.230

Olá Vitor.

Sou desenvolvedor de software e assim como qualquer pessoa que busque evoluir para um nível de expert, procuro estudar e questionar meu conhecimento, técnicas e habilidades.
Atualmente estou estudando um livro chamado " Pragmatic Thinking and Learning - Refactor your wetware " by Andy Hunt. Este livro pode ser uma das fontes que muitos podem não ter citado quando falaram dos 5 níveis descritos no modelo criado pelos irmãos Dreyfus, que são (segundo o livro):
Novice, Advanced Beginner, Compenent, Proficient e Expert.

O que tenho lido no livro tem feito muito sentido uma vez comparando com minha experiência e de outros profissionais (os quais acompanhei parte do desenvolvimento).

Portanto, não sei se estes 5 níveis podem ser considerados inválidos.
Agora que já fiz a crítica ao seu post, também achei realmente interessante o que você citou:

" A meu ver os desenvolvedores de software não permanecem muito tempo no nível Competente, pois são elevados rapidamente para um nível gerencial e, numa área nova, voltam a ser iniciantes "

O que foi dito realmente comprova-se dia a dia nas grandes empresas de TI.
Aqueles que continuam em busca de alcançar altos níveis chegando a expert, geralmente são profissionais onde a realização no trabalho não está totalmente focada em retorno financeiro.

Aqueles que buscam maior valorização e status, na maioria das vezes vão mesmo migrar para áreas de gestão, uma vez que experts e compententes são valorizados da mesma forma.

Eu poderia falar muito sobre o assunto neste comentário, porém acredito que seja melhor que fique com a indicação deste bom livro que citei anteriormente.

Seria interessante que este tipo de assunto ajudasse a melhorar a valorização de profissionais que tanto dedicam-se aos estudos e à busca pela excelência.

Sucesso a todos nós

- - astronauta

- - Posted in Jun 8, 2013 by 187.10.93.152

Vitor.

O livro que citei: Pragmatic Thinking and Learning usou como referência o seguinte artigo:

Mind Over Machine: The Power of Human Intuition and Expertise in the Era of the Computer

cujo o link para o pdf pode ser obtido através da URL:
http://www.alpheus.org/TS_Open/SkillAcquisitionTableText.pdf



- - astronauta

- - Posted in Jun 8, 2013 by 187.10.93.152

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