Vitor Pamplona

Innovation on Vision: Imaging , Enhancement and Simulation

Interfaces Produtivas

 Interfaces são o ponto crítico de qualquer software ou biblioteca. De nada adianta criar um modelo de classes perfeito se a visualização da informação e o modo de interação não exploram esse modelo. Interfaces produtivas podem não só agilizar o trabalho do cliente, como também motivá-lo e inspirá-lo. Um dos meios de motivar um cliente através do software é aumentar nível básico de conhecimento para usar a interface. Este post relata a minha recente experiência com interfaces diferentes.  

Normalmente, ao se projetar uma interface, se pensa no usuário mais ignorante de seu público. A interface acaba ficando bem clara, detalhista nos labels, previsível e chata. Como tudo é dito ao usuário, interfaces grandes acabam sobrecarregadas de informação extra, atrapalhando a utilidade, aumentando a complexidade e baixando o volume de interações possíveis.  

Há um tempo atrás, eu escrevi que uma interface deve ser projetada e criada observando a si mesmo como funcionário de seu cliente, ou seja, pensar no usuário em primeira pessoa, e não em terceira . A pergunta a fazer é: " Como eu gostaria de usar este sistema? " Se você sente que não usaria a interface que projetou, há algo muito errado.  

Nesta última semana, eu ampliei esta minha forma de pensar. Ante-ontem entreguei a primeira versão de um projeto de médio prazo para um grupo de pesquisa mista na cardiologia do Hospital de Clínicas em Porto Alegre. Trata-se de um software de processamento de imagens e extração de conhecimento com alto teor estatístico que levou meses para ficar pronto. Foi a minha única entrega de software nos últimos 3 anos, totalmente diferente da anterior: um ERP completo, implantado do dia para a noite em vários departamentos de uma empresa gigantesca que ainda usava um sistema em COBOL.

Este sistema que entreguei semana passada foi feito para mim, como sendo usuário único do sistema. Nunca pensei em mim como um médico tentando usar o sistema, como eu havia proposto. Só eu sabia como usá-lo. Só há uma tela. Não há os menus convencionais, nem popups. Não há ajuda, tela de about, hints, mensagens explicativas. Os labels são extremamente comprimidos, necessitam de conhecimento de informática, há muita informação oculta, muitas teclas de atalho e não há distinção visual clara de contextos de trabalho (apesar de haverem três contextos diferentes). Não há manual. Teoricamente, este software vai contra tudo que a área de Interação Humano-Computador propõe. Apesar de toda a informação correta que o software gera, deveria ser rejeitado por qualquer pessoa em sã consciência.

Quando me disseram para instalar este programa lá na cardiologia e que haveriam outros usuários, e isto foi na segunda feira, eu pensei: " ah.. fudeu! O sistema não está pronto para eles e não terei tempo de criar interfaces mais intuitivas e claras ". Dito e feito. Sequer abri o software durante a semana, instalei ele na sexta como estava, sem tirar nem pôr nada, e fiz um treinamento com alguns usuários.

Para a minha surpresa, meus clientes receberam muito bem o software. Ou, digamos, eu fiz eles receberem bem o software. Fiz um treinamento diferente. Não mostrei a eles como usar o sistema, mostrei como EU usava o sistema , que é a única forma de usá-lo, diga-se de passagem. Obviamente, a minha performance usando o meu sistema é muito alta e acho que isto os impressionou. Pela primeira vez eles não tinham que clicar em File / Open para abrir um arquivo, o sistema já abre todos os possíveis arquivos de cara. Pela primeira vez eles não tinham que levar o mouse até um botão, bastava uma única tecla. Pela primeira vez usaram a wheel do mouse para zoom e movimentação (interação do Gimp). Pela primeira vez, eles tinham que gravar comandos para usar um programa. Entre outras novidades.

Quando eu passei o comando do sistema para um deles, eles estavam impressionados, mas ainda não haviam tocado no sistema. Não sabiam como seria difícil aprender. Neste momento deu um frio na barriga: " Ela não vai lembrar do que eu disse a pouco, não vai saber usar " - pensei. Dois minutos depois eu estava boquiaberto. Ela não apenas estava usando o software como tratava-o   como uma ferramenta de verdade, tentando explorá-la como se fosse algo físico, mas claro, ela errou muitas vezes.

No final do treinamento eu entendi o que se passava. Meus clientes trataram aquela interface como um desafio . Eles queriam usar o sistema da mesma forma que o especialista nele - que sou eu - usava. Estava claro que, para eles, a falta de afinidade com o computador (são médicos e não computólogos) não era desculpa para não conseguir fazer o que um especialista fazia.

Eu criei a interface sem dar outro caminho a eles, mas eles entenderam que eu apostei, confiei que eles saberiam usar desta forma. Esta confiança e o treinamento diferenciado, aumentou a motivação deles. Além de, claro, poderem desfrutar de muito mais informação do que tinham antes.

Um movimento similar começou ano passado na nossa área: O pessoal trocando o Java por algo mais inteligente, mais divertido. Java estagnou, tornou-se chato e previsível. Rails é muito mais desafiador que java, pois além de esconder a configuração, permite que os desenvolvedores se sintam inteligentes quando o usam. Não é apenas um conjunto ordenado de métodos e objetos.  

Enfim, não sei se estou no caminho certo, desta vez eu contei com a sorte. Ainda não sei quais são os riscos reais desta forma de trabalho. Mas estejam certos de que, nos meus próximos projetos de interface, esteja onde eu estiver, eu estarei pensando em como desafiar meu cliente, melhorando o trabalho dele por tabela.

Posted in Oct 21, 2008 by Vitor Pamplona - Edit - History

Showing Comments

Quanto mais eu rezo mais assombração me aparece....

- - Max

- - Posted in Oct 24, 2008 by 189.61.94.238

Já pensou em mudar de religião?:)

- - Posted in Oct 24, 2008 by Vitor Pamplona

Ei!
Tão usando o meu nome, mas é outro IP!!!!!

- - Max

- - Posted in Oct 24, 2008 by 201.22.139.127

Acho que funciona legal para usuários (no caso os médicos) com niveis de conhecimento ou mesmo " inteligência " maiores, mas na minha opnião eu acho que não funcionará para pessoas leigas com pouca instrução.

- - Elmar

- - Posted in Oct 28, 2008 by 201.47.188.145

Tá bom de você dar essa dica lá pro pessoal da Microsoft, já pensou?!?! você instala o office doidão feito de acordo com sua metodologia e surge uma cópia virtual do engenheiro que projetou a interface maluca do seu lado pra te desafiar a usá-la. hehehehe... jizuiz....

Max eu também sou Max... por incrível que possa parecer...

- - Max

- - Posted in Oct 28, 2008 by 189.61.94.238

Max,

acho que o pessoal da Microsoft já incorporou a dica. Quer coisa pior do que a interface do Office 2007?

- - Max - o original

- - Posted in Oct 29, 2008 by 200.198.212.195

Original,

Pior que você tem razão, heheh... mas ainda não estão enviando o Engenheiro junto... Ainda não estão seguindo a metodologia VitorPamploniana Para Interfaces Escalafobéticas por completo...




- - Max

- - Posted in Oct 29, 2008 by 189.61.16.199

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