Vitor Pamplona

Innovation on Vision: Imaging , Enhancement and Simulation

Escravos do próprio ego

Exploração Frase para lembrar: Quem trabalha pela própria honra e ego o faz gratuitamente.

Quem nunca pensou em publicar um artigo na JavaMagazine ou na MundoJava e ficar famoso? O processo é bem simples, você escreve um artigo ou um tutorial bom , caprichado, e submete na página da revista. Em pouco tempo seu trabalho será avaliado. No caso de uma avaliação positiva eles entram em contato pedindo ajustes e já combinam uma data para publicação. A partir daí é só esperar para ver o seu nome e currículo na revista, e, claro, segurar o assédio dos fans. Muito legal e fácil não é? Pois é, seria.

Este tipo de trabalho é visto como um trabalho voluntário. No entanto, não é um trabalho voluntário para ONGs socio-ambientais, é um trabalho voluntário para empresas e na área de atuação profissional do indivíduo. Ou seja, o que deveria ser o sustendo dele e de sua família é dado de graça. Parece brincadeira, mas é um legítimo e lucrativo modelo de negócio que todos nós conhecemos bem. Trata-se de uma nova forma exploração, uma exploração psicológica que se expandiu junto com a globalização, na era pós-industrial: os escravos do próprio ego.

Para entendermos, vamos inverter o jogo. Ao invés de autor, imagine-se do lado da empresa e analise o modelo de negócio de uma revista técnica qualquer. Enquanto que uma revista tradicional mantém um conjunto de jornalistas e editores contratados, as revistas técnicas não tem esse gasto ou o tem reduzido, devido ao fato de receberem periodicamente artigos interessantes que precisam apenas de lapidação. Algumas sequer mantém equipes de revisão, afinal se o autor escreveu apenas para ter o seu nome na revista, um revisor pode revisar e ganhar o mesmo. Uma revista se mantém com as suas vendas nas bancas, assinaturas e com as propagandas em páginas selecionadas. Ora, uma propaganda em uma revista técnica, por atingir um público específico, tem um custo muito superior das revistas normais. Juntando tudo, elas utilizam-se da vontade de aparecer dos autores para preencherem o espaço dos artigos sem custo algum, ganham o seu lucro e não dão nenhum bônus financeiro ao autor.

Alguns argumentariam que o Software Livre e a Wikipedia também se classificariam neste tipo de exploração, no entanto, tanto o software livre quando a wikipedia estão baseadas, geralmente, em ONGs. Quando um projeto de software livre tem uma empresa lucrando por trás, é muito difícil ter cooperação da comunidade, a não ser, é claro, que aquela empresa recompense bem os desenvolvedores livres. No entanto, não vou negar, pode-se sim ter este tipo de exploração também com Software Livre. Não vou acusar ninguém, mas pense a respeito.

Na área acadêmica esse tipo de exploração é mais presente. Como, no brasil, um pesquisador é avaliado pelo número de publicações que possui, ele é obrigado a enviar artigos gratuitamente e periodicamente para eventos e revistas que, certamente, possuem " publishers " lucrando por trás. Além disso, alguns pesquisadores em prol de um contato maior com outros da mesma área, tanto no brasil quanto no exterior, revisam gratuitamente artigos submetidos para estas revistas. Tanto a submissão, quando a revisão de um artigo, exigem muitas horas trabalhas, afinal seu nome está em jogo, você não pode dar bobeira. No caso de submissão, os textos são, normalmente, resultado de meses de trabalho de um graduando, mestrando ou doutorando. No caso da revisão, algumas horas ou dias de mestrandos ou doutorandos. Como o valor hora desse pessoal não é baixo, imagine o custo se as empresas tivessem que pagar para publicar trabalho. No final, se for publicado, o autor não recebe nada além do crédito pelo seu trabalho, e o revisor, nada além de ter seu nome na página de revisores.

Há muito tempo eu venho pensando sobre esse modelo, mais precisamente, em formas de corrigir essa injustiça. Acredito que a solução mais simples e fácil é estipular um bom prêmio por artigo publicado. Se o seu artigo for publicado, você ganha 1.000,00 reais e o revisor dele R$ 500,00. Se uma revista publica 8 artigos de terceiros por edição, terá um gasto de 12.000,00 reais. Como poucas iriam fazer isso, estas revistas receberiam mais artigos e, em consequência, poderiam escolher só os melhores. Afinal quem não quer ficar famoso e ainda ganhar um trocado? Se a revista é mensal e você conseguir escrever um bom artigo para cada edição, quem sabe você não se mantém só escrevendo artigos?

Não tenho nada contra uma pessoa que queira demonstrar seu conhecimento ou trabalho ao público, mas tenho contra quando esta pessoa trabalha, sem saber, para uma outra ganhar dinheiro. Faça um blog, ajude alguma comunidade, trabalhe numa ONG, mas não trabalhe de graça para uma empresa. Isso é sacanagem.

The following pages are talking about "Escravos do próprio ego":

Posted in Jan 27, 2009 by Vitor Pamplona - Edit - History

Showing Comments

Opa alemão, parabéns pela casa nova!

Bom, eu até concordo sobre a escravidão mencionada sobre os autores que escrevem para revistas técnicas sem receber nada em troca. Também acho uma puta sacanagem o modelo de negócio destas revistas.

Na área acadêmica já penso um pouco diferente. O envio dos artigos para as grandes conferências e periódicos é gratuito, alguma " publisher " lucrará com a venda deste conhecimento, mas de certa forma o professor e o aluno (na maioria das vezes) estão recebendo de algum orgão (universidade, governo, empresa) para fazer este tipo de serviço. Faço analogia a um desenvolvedor que faz software livre, mas por trás tem uma empresa pagando o seu salário. O seu código não deixa de ser gratuito aos outros, e muitas vezes outras empresas lucrarão sobre este código desenvolvido.

Claro que esta minha observação não é válida para uma pessoa que gostaria de viver apenas de publicação de artigos. Mas acho difícil um ser viver disso isoladamente, sem estar em um ambiente / instituto / universidade / empresa que faça pesquisa (papo pra outro post).

Sobre a revisão para as conferências e periódicos, isso sim eu acho sacanagem não ser pago e pra piorar tem um " publisher " lucrando sobre o teu trabalho de revisão.

Existem algumas iniciativas para acabar com essa tal exploração no meio científico. Uma delas é o Science Commons (http://www.sciencecommons.org /), sob licença Creative Commons. Quem publica? Qualquer um. Quem avalia? A comunidade. Mas pelo que vi esta idéia ta engatinhando ainda.

Vlw

- - Posted in Nov 22, 2007 by Giovane Kuhn

Só lembro que o pagamento que o Governo paga aos estudantes é um prêmio pelo seu desempenho prévio e não um salário. Por exemplo, um mestrando ganha bolsa por ter um bom desempenho na Graduação. Embora que em alguns lugares o bolsista tenha que cumprir certas metas, não quer dizer que possa " jogar dinheiro fora "

- - Posted in Nov 22, 2007 by 143.54.13.84

E quanto aos professores que apenas tascam seus nomes nos trabalhos dos alunos? Eu acho pertinente essa discussão, mas pense bem, quanto vale o crédito de ter o nome em uma revista especializada? O quão isso pesa no currículo? Os profissionais também não são bobos de fazer isso completamente de graça, há retorno sim, mesmo que não seja financeiro.

- - Marcos Silva Pereira

- - Posted in Nov 26, 2007 by 189.70.65.102

Este é o funcionamento básico da publicação científica desde sempre. Pode não haver um retorno financeiro, mas há certamente um retorno intangível em forma de respeito, reconhecimento.

E se quiser pensar sobre " o outro lado ", pense assim: quando você for procurar um emprego novo ou lutar por financiamento de algum projeto e mostrar no currículo que você publicou na " Mundo Java " ou outra revista qualquer. Você pretende pagar à revista por isso?

Se você publica artigos em busca de retorno financeiro, deveria talvez procurar a profissão de jornalista, não pesquisador.

- - Roberto Teixeira

- - Posted in Jan 11, 2008 by 192.55.52.2

Roberto,

O fato de alguém ter publicado em qualquer revista ou journal não traz respeito algum. Dadas as devidas assumptions que o teu artigo precisa, qualquer coisa pode ser publicada na academia.

Eu respeito apenas aqueles que conseguiram publicar em journals muito concorridos, os TOP de cada área. Os outros não passam de sobras destes maiores.

No mais, era o que faltava mesmo, além da revista lucrar em cima de mim ainda ter que pagar para poder publicar algo.

[] s

- - Posted in Jan 11, 2008 by Vitor Pamplona

No caso da academia, em particular das universidades federais, professor é funcionário público, pago para publicar coisas. Aliás, os professores brasileiros publicam muito pouco se comparados aos do resto do mundo.

Quanto a escrever artigos em periódicos, não é escravidão porque ninguém é obrigado a fazê-lo. Se você se julga lesado, não o faça! O fato é que isso nunca deu dinheiro. Mesmo quem escreve livros, mesmo num contexto mundial, procura mais por reconhecimento e " respeito " do que por renda.

E revistas técnicas não são exatamente um manancial de lucros infinitos. É só ver o tempo médio de sobrevivência das mesmas. Se você discorda, crie uma e fique rico:)

- - Elvis

- - Posted in Jan 11, 2008 by 189.31.116.31

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