Vitor Pamplona

Innovation on Vision: Imaging , Enhancement and Simulation

A indústria e a academia

Ok, eu já tenho 6 anos de indústria e 4 anos de academia. Acho que posso mostrar a vocês algumas diferenças entre estes mundos tão distantes e tentar quebrar um preconceito tolo de ambas as partes: O pessoal da indústria acha que a academia não vale nada, não inova e está sempre atrasada, enquanto que a academia acha a indústria muito fútil, marqueteira e ignorante em termos inovadores.

Para a indústria, o desenvolvimento de software é visto como um processo mecânico ou criativo (varia de empresa para empresa) para a automatização de tarefas de um determinado grupo de clientes. Quem define se o software está correto e se atinge as expectativas é o cliente e, normalmente, não há qualquer fundamentação teórica durante o desenvolvimento. Os projetos são desenvolvidos em equipes, tem uma vida longa e tendem a ser utilizados no dia-a-dia. O foco é maior na maneira de como o software é desenvolvido, do que na solução em si. Muitas das soluções propostas se baseiam na informatização do caos com interfaces intuitivas ou produtivas. Apenas alguns projetos desenvolvem novos algoritmos ou novos sistemas totalmente automatizados. Os clientes definem empiricamente as melhores contribuições através do melhor produto. No trabalho em equipe, a experiência do programador lhe dá muito crédito e lhe ajuda a impor suas decisões. A inovação deste meio é sempre apenas uma parte do produto como um todo.

Já para a academia, o desenvolvimento de software é um processo de investigação e elucidação de hipóteses. Poucas interfaces são intuitivas ou produtivas e poucas implementações tem apelo comercial. Os projetos são desenvolvidos por uma pessoa apenas e, por este motivo, não seguem nenhum padrão ou metodologia de desenvolvimento. O software tem uma vida muito curta (meses), é abandonado após atingir seu objetivo inicial. Neste mundo, há um incentivo muito forte por softwares e algoritmos autônomos - sem qualquer interferência humana. Quem define se o software está correto ou não, são os números provenientes das análises estatísticas feitas pelo próprio desenvolvedor em cima do software. O formalismo do desenvolvimento e sua posterior validação definem as melhores contribuições. A experiência do programador não vale nada, a imposição de idéias e a liderança entre as equipes se dão via argumentação científica. A inovação na academia é todo o produto. Não se desenvolve nada se o objetivo não for inovar.

Enquanto que na indústria é comum a interferência do cliente no produto em função de melhorá-lo, na academia isto praticamente não existe. Em contra partida, o formalismo da academia no desenvolvimento e na validação praticamente não existe na indústria. Os conceitos de engenharia de software, muito comuns na indústria, não existem na academia. A imposição de idéias e a liderança de equipes na academia, por sua vez, se dão via argumentação científica, com seus líderes mudando constantemente, ao contrário da indústria, onde os líderes quase não se alteram e há muito jogo político.

Apesar das diferenças, os dois mundos inovam. Cada um a sua maneira, com seus objetivos. Na indústria a inovação vem muito em interfaces, conceitos e tecnologia, enquanto que na academia a inovação é sempre científica. Por exemplo, o Twitter é uma inovação conceitual, não tem peso científico algum. Mas é uma inovação. Já o Google foi uma inovação acadêmica, devidamente validada com métodos científicos, onde lá no início não havia sequer um apelo comercial.

Não estou aqui julgando qual o melhor entre estes dois mundos. Eles são diferentes e tem prioridades muito diferentes, portanto qualquer comparação seria injusta. No entanto, muita gente insiste em comparar e falar inverdades sobre o outro meio sem sequer ter vivenciado alguma experiência. Não julgue sem saber.

Posted in Aug 3, 2009 by Vitor Pamplona - Edit - History

Showing Comments

Bem interessante o artigo.
A academia chega até a propor algumas soluções que técnicamente são corretas, mas num mundo prático não tem cabimento


- - Paulo Fernandes

- - Posted in Aug 3, 2009 by 201.92.149.122

Bem,

A indústria é bem mais produtiva e inovadora, um cliente pode ser bem exigente em inovações e novos conceitos assim exigindo mais experiência do programador e as contribuições serão bem maiores ao fim do desenvolvimento, sem contar no trabalho de equipe onde se pode compartilhar bem mais conhecimento. Portando o maior credito é da indústria.

- - Marcleônio

- - Posted in Aug 3, 2009 by 201.34.200.102

Viu... gente ignorante falando o que não sabe: D

Vai dizer que foi a indústria que criou a teoria da relatividade? O google? O computador? O colchão? Não meu caro, essas invenções são da academia. A indústria pouco se importava com elas.

[] s

- - Vitor Pamplona

- - Posted in Aug 3, 2009 by 143.54.13.187

O maior problema é a distância entre as duas. Não existe motivo delas serem tão díspares. Um pouco mais de integração entre elas traria benefícios às duas.

- - Ricardo Cardim

- - Posted in Aug 3, 2009 by 189.59.8.130

Oi Ricardo,

Concordo. A SBC tem instruído a Academia em computação a se aproximar da indústria. Mas ainda há poucas empresas que conseguem ver lucros com a aproximação da academia.

A maior barreira é que os acadêmicos não entendem as prioridades das empresas e as empresas não entendem as dos acadêmicos. Nunca conseguem chegar num acordo.

[] s

- - Posted in Aug 3, 2009 by Vitor Pamplona

" Vai dizer que foi a indústria que criou a teoria da relatividade? O google? O computador? O colchão? Não meu caro, essas invenções são da academia. A indústria pouco se importava com elas. "

Estamos falando de engenharia de software, certo?

" A SBC tem instruído a Academia em computação a se aproximar da indústria. Mas ainda há poucas empresas que conseguem ver lucros com a aproximação da academia. "

Talvez porque haja um entendimento tácito na academia de que qualquer coisa que tenha uma utilidade é atividade menor?

" A maior barreira é que os acadêmicos não entendem as prioridades das empresas e as empresas não entendem as dos acadêmicos. Nunca conseguem chegar num acordo. "

Como você gosta de comparar áreas, vou me arriscar neste terreno pantanoso: nas ciências biomédicas ou agrárias as descobertas são feitas pela academia e, algum tempo depois, lá estão elas (pelo menos as bem sucedidas) servindo às pessoas, salvando vidas e ajudando a melhorar a produtividade. Quanta coisa da engenharia de software acadêmica foi parar nos softwares chamados corporativos nos últimos 10 anos? Quanto disto diz algo ao desenvolvedor? AOP, talvez? A academia deveria guiá-lo, mas o desenvolvedor insiste em coisas aprendidas com os " contadores de histórias ". Por quê?

- - Rodrigo

- - Posted in Aug 3, 2009 by 189.24.23.18

Oi Rodrigo,

" Estamos falando de engenharia de software, certo? "

Não, estamos falando de computação. Engenharia de software é a menor das sub-áreas da computação. Até porque a academia sequer usa esse tipo de metodologias mercadológicas.

" Talvez porque haja um entendimento tácito na academia de que qualquer coisa que tenha uma utilidade é atividade menor? "

De onde você tirou isso? Não faz sentido.

" Quanta coisa da engenharia de software acadêmica foi parar nos softwares chamados corporativos nos últimos 10 anos? "

Bom, eu não sou de engenharia de software acadêmica, não sei te dizer. Talvez: AOP, OO, Dynamic AOP, UML (Não estou certo se UML foi acadêmico), algoritmos de correção automática para modelos de classes, métricas, estudos sobre qualidade de software, taxonomias, modelos preditivos, dynamic QoS, modelos de requisitos. Não sei tem muita coisa para ver. Claro que empresas de fundo de quintal nunca vão utilizar essas teorias.

[] s

- - Posted in Aug 3, 2009 by Vitor Pamplona

" Talvez porque haja um entendimento tácito na academia de que qualquer coisa que tenha uma utilidade é atividade menor? "

" De onde você tirou isso? Não faz sentido. "

Talvez daqui:
" Engenharia de software é a menor das sub-áreas da computação. Até porque a academia sequer usa esse tipo de metodologias mercadológicas. "

Quanto à ultima pergunta, foi a resposta que eu esperava.

- - Rodrigo

- - Posted in Aug 3, 2009 by 189.24.23.18

Oi Rodrigo,

Pela sua última resposta, parece que você acha que a engenharia da computação é a área mais importante da computação. Se for isso e se você é da indústria, sua atitude reflete apenas o que eu disse no post: para a indústria o " como fazer " é mais importante do que a solução propriamente dita.

Talvez porque a indústria não seja tão boa em solucionar problemas reais como parece ser.

[] s

- - Posted in Aug 3, 2009 by Vitor Pamplona

Há sempre casos e casos...

Minha graduação (engenharia) foi numa faculdade que tinha muito contato com a indústria, e onde fiz estágio tinha muito contato com a faculdade.

A primeira IC que fiz foi num grupo de um cara que trabalhava na petrobrás e fazia o doutorado em detecção de falhas usando os exemplos da petro. Foi um trabalho e tanto, aplicado e gerou muitos artigos. Para não falar que esse exemplo é único, logo depois trabalhei num grupo que o aluno de Mestrado trabalhava numa grande mineradora e o Mestrado dele era resolver um certo problema. É outro exemplo da parceria indústria / academia.

Fiz estágio numa empresa e vi ela pegando projetos que foram resolvidos em conjunto com a universidade, através do Mestrado de um cara lá.

Por outro lado já trabalhei em empresas que queriam o programador só pra digitar int main () o dia inteiro.

Sempre há casos e casos. Esperto é o cara que sabe juntar o melhor dos mundos...

http://demoniodemaxwell.wordpress.com /

- - Demonio de Maxwell

- - Posted in Aug 3, 2009 by 201.22.189.178

Outro exemplo da aplicabilidade da academia no mercado está na veja dessa semana. É só abrir a revista exatamente no meio.

- - Demonio de Maxwell

- - Posted in Aug 3, 2009 by 201.22.189.178

Olá Vitor,

Concordo com você que é complicado realizar comparações entre ambas, já que o objetivo dos profissionais em cada uma delas é diferente.

Nesta palestra, http://www.infoq.com/presentations/tony-hoare-computing-engineering, Sir Hoare comenta exatamente sobre a diferença destes profissionais e de seu dia a dia.

E a indústria também desenvolve produtos de maneira cientifica, como os centros de Microsoft, Xerox e IBM (Almaden).




- - roberto

- - Posted in Sep 2, 2009 by 189.47.149.35

Na Indústria, a dúvida e a pesquisa não são produtivas.
Na Academia, são.
A Indústria agrega o que a Academia descobre.
O paradoxo é que a Academia é a vanguarda, mas uma vanguarda mais lerda que a indústria, se forem comparadas sem distinção, considerando a produtividade.

- - Carlos Estevam

- - Posted in Mar 6, 2010 by 201.86.160.78

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- - جحا

- - Posted in Dec 14, 2013 by 197.160.116.140

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