Vitor Pamplona

Innovation on Vision: Imaging , Enhancement and Simulation

A Agonia dos Ignorantes

A complexidade é mero fruto da ignorância. Para ilustrar esta frase vou contar uma estória.

Paulo é o representante de TI no conselho executivo de uma das maiores marcas do mundo, a Nike. Seu papel é analisar as decisões dos diretores e sugerir sistemas computacionais adequados às suas necessidades. Entre respostas à crise financeira e novas maneiras de baixar o custo de produção, o diretor de marketing da empresa diz o seguinte:

... e seria muito interessante se pudéssemos avaliar quantitativamente o acesso de nossos produtos pela internet. Não só o acesso, mas o quão importante são os nossos produtos para vida de nossos clientes. Sabemos que a nossa marca está em todos os lugares, mas o que o povo fala sobre ela? Todas as nossas medidas de satisfação atuais são baseadas em estatísticas grosseiras e avaliações qualitativas com um público pequeno de clientes comparado ao alcance da empresa. Precisamos mudar isso. Uma análise precisa nos permitiria delegar as atitudes certas a lugares e público-alvos específicos e, além disso, ajudaria a definir um valor para a marca.

Senhores, o que nós necessitamos é de um sistema computacional que processe as 60 bilhões de páginas de internet espalhadas pelo mundo. Para cada página, o sistema deve identificar se a Nike está sendo referenciada e, se estiver, deve encontrar um contexto positivo ou negativo em relação à marca. Grosso modo, a soma dos contextos positivos de todas as páginas resultaria no valor da marca. Com este número, teríamos condições de dizer, claramente, se estamos evoluindo ou regredindo em nossas atitudes. Acreditamos que, com o investimento certo, o setor de TI possa construir tal sistema de análise baseado nas informações públicas da internet, sem violar qualquer direito do autor.

O presidente obviamente gosta da idéia e diz:

Concordo com a sua sugestão, seria uma maneira interessante e inovadora de estudarmos o nosso público. Não podemos abandonar os métodos antigos, mas esta nova ferramenta traria um feedback rápido de todos os nossos programas e interações com a sociedade. Através do feedback, poderíamos direcionar mais recursos as atividades que estão funcionando no momento.   Hoje o nosso feedback é de meses, as vezes, anos. Perdemos muito dinheiro por causa disso. Com este sistema, podemos ter um retorno das ações em questão de dias. Genial esta idéia. Podemos investir milhões nela. O que tem a dizer, Paulo? Temos uma equipe capaz de desenvolver o sistema?

Neste ponto, Paulo, como um bom profissional, já viajou o mundo e vislumbrou o quão complexo e arriscado o sistema requisitado é. Não se trata apenas de analisar contexto. Trata-se de definir uma carga sentimental probabilista a cada página, a cada comentário de blog ou post de fórum com uma referência à Nike. O sistema deverá ter suporte a multi-língua, deverá conhecer gírias, sinônimos e a cultura de cada país. E não só isso. O sistema terá que processar as imagens que contenham o logotipo e identificar o contexto que este está inserido. Os vídeos terão que ser processados. Pode haver Nike nos frames do vídeo, no áudio ou pode nem haver, mas pode ser que estão falando da empresa sem mencioná-la. Os comentários sobre a empresa podem ser irônicos, ambíguos, podem estar em Élfico ou em Chinês e, além de tudo, a informação, apesar de presente, pode passar despercebida pelos leitores / ouvintes. O que o leitor percebe / interpreta freqüentemente é diferente do que está apresentado. Em uma imagem, por exemplo, talvez ninguém note que pintado num muro atrás de uma cruz em chamas esteja o logo da Nike, ou talvez aquilo seja mesmo uma retaliação aos produtos Nike. Identificar o contexto nesta ocasião necessitaria de um cruzamento de dados entre os detalhes da imagem, o texto e o áudio, além de uma análise histórica da página em que foi publicada.

Paulo está apreensivo. O que dizer num momento desses? A empresa vai investir no sistema o quanto ele pedir e o tempo que for necessário. Não há desculpas para negar o projeto além da sua própria ignorância em como resolver o problema. A oportunidade é única na sua carreira. Se ele não aceitar, alguém vai. Escolher a equipe não será fácil. São pelo menos 8 áreas de diferentes: processamento de linguagem natural, recuperação de informações, sistemas distribuídos, computação gráfica, processamento de sinais, “ sentiment analysis ”, percepção humana e marketing digital.  

Se você fosse o Paulo, o que faria? Quem teria experiência para comandar um projeto desse tamanho, com todas essas peculiaridades? Por onde começaria? Pularia do prédio?

Sabem, pode parecer mentira, mas tudo o que este sistema faria já existe de alguma forma. Só não está integrado em uma única solução comercial e não é tão difundido fora da academia. As idéias, a lógica, os modelos, a forma de lidar com a informação, já estão desenvolvidas / projetadas.   Existem técnicas avançadas para encontrar padrões em imagens e segui-los em um vídeo. O processamento de áudio, em diversas línguas, já está avançado a ponto de reconhecer Nike e transcrever textos completos com bom aproveitamento. Já existem modelos integrados para identificar contextos usando informação da página Web, da imagem e do vídeo. Já existem modelos de percepção e distração humana, capazes de identificar em uma imagem, por exemplo, as áreas que mais chamam a atenção e aquelas que passam despercebidas. O processamento de linguagem natural, cujo objetivo é interpretar textos humanos automaticamente, é uma área relativamente nova, mas vem ganhando forte investimento nos últimos anos. Atualmente alguns aspectos semânticos já estão sendo capturados com sucesso. Sentiment Analisis é uma área novíssima, mas já existem especialistas no ramo da computação e não vai demorar muito para terem resultados satisfatórios e até comerciais.

É claro que a construção daquele sistema não é apenas juntar estes modelos e técnicas. Há muito trabalho ainda a ser feito. Mas o fato é que quem tem o costume de ler artigos científicos de várias áreas não acharia esta idéia tão absurdamente complexa como ela parece em primeira vista.   Na verdade, não veria nada novo e até já teria os nomes dos principais coordenadores das equipes. No máximo, o sujeito estranharia o fato da empresa querer gastar dinheiro num modelo tão complexo, mas isso, às vezes, também ocorre.

O problema, quero salientar, é que as pessoas nunca se preparam para esses momentos. Assim como o Paulo, que preferiu esperar a cobrança de seus superiores para começar a estudar o tema, existem inúmeros profissionais despreparados no mercado. Aqueles que não dão bola para Inteligência Artificial hoje, serão aqueles que decidirão a nova arquitetura dos robôs de 2050. Aqueles que não deram valor as teorias de química no passado, serão aqueles que mais terão problemas em escolher o medicamento certo num futuro onde médicos humanóides poderão não existir mais. E, como o indivíduo é fruto de seu meio, o número de ignorantes cresce exponencialmente.  

A cultura da geração Y também não ajuda. Achar que a qualquer momento pode-se consultar o Google para resolver um problema não é a melhor maneira de comandar a vida. Talvez agora não se note a diferença, mas quando o Google se for? Lembre-se que em um século tivemos mais revoluções do que em mil anos. Tudo pode mudar nos próximos 25 anos.

Apesar de todas as evidências, ao invés de se preparar, eles esperam. Esperam ansiosamente o momento de gastar todas as suas energias para tentar algo praticamente impossível. Agonizam pela morte. A morte de suas carreiras desprezíveis.

Posted in Mar 25, 2009 by Vitor Pamplona - Edit - History

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Arruma o texto aí: " Sentiment Analysis ", não " Sentiment Analisis ".

Pra não falar que sou chato, vou comentar. Acho que é uma visão meio exagerada das coisas. A impressão que passa é que você vê o mundo ou preto ou branco, sem tons. Pra ter uma vida normal as pessoas não precisam se preocupar com certas coisas. E vida normal não é uma vida medíocre, desprezível.

Não é todo mundo que pensa dessa forma e o fato de alguém pensar de forma diferente não está errado. Se você gosta de ler única e exclusivamente artigos científicos, não há nada de errado nisso. Se uma mulher gosta de ler só caras, problema dela. Ela tá errada? Provavelmente ela acha que você está errado de perder seu tempo com isso....

Também faço doutorado. Também perco (ou ganho) tempo lendo uma porrada de artigos científicos. Gasto outro tempo lendo Feynman, embora não tenha nada a ver com o assunto do meu doutorado. Vejo um jornalzinho de vez em quando, também não tem nada a ver com meu doutorado, muito menos com meu trabalho. Vejo filme, seriado etc... Está errado? O tempo é meu, escolho como quero gastar. Eu vou ficar desesperado durante 100% do meu tempo aguardando uma possível oportunidade que possa aparecer no futuro? Acho que a gente tem que se preocupar com o futuro mesmo. Mas o excesso de preocupação chega a ser prejudicial. Não somos robos, um pouco de futulidade durante o dia faz bem. Minha impressão é que o cérebro também precisa de descanso. Não dizem que Schrödinger teve uma grande idéia numa de suas aventuras nos Alpes com sua amante? Diversão faz parte. E ajuda!

Bom, pode ser que esse comentário nada tenha a ver com o texto. Mas como cada indivíduo é a soma de tudo o que já viveu, estou considerando que esse texto também tenha alguma relação com os outros que já escreveu como aquele que estava preocupado em otimizar o tempo quando acorda, algo assim.

Enfim, falei demais já. Se fosse resumir tudo isso numa única frase seria: Tudo em exagero faz mal.

Abraços!

- - Max

- - Posted in Mar 25, 2009 by 189.75.117.66

Oi Max,

A midia (livros inclusive) adoram salientar / indicar / sugerir / escrever-entre-linhas que grandes idéias vieram do nada. Isso faz os leitores acharem que do nada podem ter idéias tão boas quanto. A vida real é bem diferente. Idéias não surgem do nada. Idéias só surgem quando você tem o background necessário para avaliá-las. Caso contrário, são idéias fúteis e provavelmente já desenvolvidas por outros.

Em outras palavras, não existe descoberta. Existe invenção. Descoberta vem da sorte, invenção do trabalho. A midia adora falar em descoberta porque, a princípio, todos tem o poder de descobrir algo em algum momento da vida. Basta ter sorte, trabalhar não é necessário.

Talvez eu me expressei mal, mas a idéia não era dizer que ignorantes não leem artigos científicos. A idéia é que ignorantes gastam muito mal o seu tempo. Ficam esperando a hora que são obrigados a agir. Agonizando.

Obrigado pela correção.

- - Posted in Mar 25, 2009 by Vitor Pamplona

Ah sim, nesse caso tudo bem. Como disse Edison, a genialidade é coisa de 90% transpiração e 10% inspiração (algo assim). Com isso concordo plenamente!

Só acho que também não precisamos exagerar e bitolar em tudo. Nada cai do céu, por isso estudos são importantes. Mas também não significa que não podemos simplesmente parar e não fazer nada por um tempo. Pra mim, uma coisa é tão importante quanto a outra (opinião completamente pessoal).

[] ' s

- - Max

- - Posted in Mar 25, 2009 by 189.27.28.45

o que significa ignorancia na internet?

- - karine

- - Posted in May 4, 2009 by 200.249.75.130

uggs are designed to wear without having socks, so that the thermostatic properties with the organic fibers to uggs full advantage.


- - ugg_australia

- - Posted in Nov 29, 2011 by 60.176.111.167

Para investir em um projeto assim, a Nike teria que mudar para o ramo de softwares. Mesmo ela sendo grande como é, visualizar e analizar todo esse conteudo é impossivel. Quanto mais complexo o sistema maior a quantidade de investimento necessario. Dependendo do projeto o investimento poderá ser maior que a soma dos lucros passados. Ou seja inviavel. Em 2009 já existia facebook? O Facebook oferece a propaganda de rede e pode oferecer dados estatisticos se uma propaganda está atingindo metas ou não. Se a Nike investisse esse dinheiro para desenvolver um softwarer tão complexo, ela teria falido porque o concorretne teria apostado no facebook.

- - opa

- - Posted in Feb 23, 2012 by 187.58.36.140

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